Me. Raquel Alves Cassoli

Raquel Alves Cassoli, Psicóloga (CRP 06/61822) pós-graduada pela Universidade de São Paulo (USP) em “Psicologia e Educação: Processos de aprendizagem e de escolarização”, Mestre pelo “Programa de estudos pós-graduados em Educação: Psicologia da Educação” da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Doutoranda também da PUC-SP em Psicologia da Educação, nos presenteia com um belíssimo e reflexivo texto sobre o preconceito na visão do deficiente auditivo, contando inclusive suas experiências pessoais nesta área, já que, além de ser psicóloga, Raquel também possui deficiência auditiva. Confira a seguir seu relato.

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 “A percepção do preconceito do ponto de vista de uma deficiente auditiva

É uma honra poder escrever este texto para a ADAP e juntar minha experiência de vida com a minha profissão. Reconheço que falar sobre preconceito não é um tema fácil e espero que possa fazê-los refletir sobre o assunto, uma vez que se apresenta como algo difícil de ser superado em nossa sociedade. O objetivo deste texto é abordar a percepção do preconceito pelos surdos/deficientes auditivos.

Preconceito no dicionário é explicado como um juízo pré-concebido, que se manifesta numa atitude discriminatória, perante pessoas, crenças, sentimentos e tendências de comportamento. É uma ideia formada antecipadamente e que não tem fundamento sério. E pode estar muito mais ligado a aparência do que a essência das pessoas. O preconceito pode acontecer de uma forma banal, até um pensamento, como por exemplo: “que feio, que gorda, que magro”. E pode ser dirigido à diferenças raciais, sexuais e sociais.

O preconceito contra os deficientes existe desde os primórdios da humanidade, nos anos 480 a. C. os bebês considerados anormais eram mortos. Esta realidade se modificou aos poucos, mas como disse anteriormente, não foi superada, os deficientes foram alcançando lugares melhores na sociedade, mas continuaram sendo excluídos. Um dos pensamentos mais fortes que respingam nos dias de hoje, que alimenta o preconceito e a dificuldade de aceitação da família sobre a deficiência é a ideia pregada na Idade Média de que os deficientes eram o castigo dos pecadores (pais).

Só nos séculos XVIII e meados do século XIX, é que os indivíduos que apresentavam deficiência eram segregados e protegidos em instituições residenciais. E, no final do século XIX e meados do século XX, começam o desenvolvimento de escolas e/ou classes especiais em escolas públicas, visando oferecer à pessoa deficiente uma educação à parte.  A preocupação com a integração ou inclusão do deficiente na sociedade data final do século XX, por volta da década de 70, onde observa-se um movimento de integração social dos indivíduos que apresentavam deficiência, cujo objetivo era integrá-los em ambientes escolares, o mais próximo possível daqueles oferecidos à pessoa normal.  Quero mostrar com isto que a convivência com pessoas deficientes é algo recente em nossa sociedade. Não fomos ensinados a lidar com isso. Não quero com isto justificar as atitudes discriminatórias, mas muitas vezes cabe ao deficiente auditivo ter paciência até com a própria família.

Em São Paulo, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (DECRADI) orienta que: “Os crimes de ódio contra deficiente costumam envolver formas de abuso e intimidação ou comentários desrespeitosos camuflados sob a forma de “piadas”. São comuns agressões físicas, agressões verbais, o uso de palavras ofensivas em relação a deficientes, comentários de mau gosto (o agressor costuma classificar tais comentários como brincadeira), imitação da maneira de ser da pessoa com deficiência, ataques morais, não admissão em cargos de emprego e etc. Os atos discriminatórios podem acontecer nas mais variadas situações e nos mais variados lugares. A discriminação, sendo ela sutil ou evidente, deve ser denunciada. Além de ser um direito, é dever de todo cidadão denunciar esse tipo de ocorrência. Através da denúncia protege-se não apenas uma vítima, mas todo um grupo que futuramente poderia ser atacado.”  Reagir a atos de preconceitos explicito nos parece muito fácil, mas as vezes ele aparece de forma muito sutil e a sutileza vem de quem a gente sempre menos espera.

Vou falar um pouco aqui sobre mim: Sou deficiente auditiva, acho que desde que nasci, minha mãe sempre desconfiou, me levou à diversos profissionais que justificavam que eu ouvia o que queria ou diziam que não era nada. A primeira vez que fiz uma audiometria já estava com 9 anos e pela primeira vez um médico deu razão para minha mãe. O diagnóstico explicava a dificuldade de acompanhar os ditados ou as brincadeiras de telefone sem fio, a televisão sempre alta e o fato de nunca perceber que alguém me chamava de longe. Eu virava as costas e os sons desapareciam.  A sugestão de uso de aparelhos, não passou de mera sugestão. Recusei até os 17 anos, sou muito hábil em leitura labial e nunca revelei minha deficiência, desta forma eu era vista pelos colegas como metida, arrogante, mas nunca como surda. Quando passei a usar aparelhos auditivos houve um desconforto na família, na escola e com os amigos: era um assunto quase proibido. Dos poucos que souberam, alguns lidaram com naturalidade e outros queriam que eu escondesse o aparelho. Essa atitude minava minha autoestima e fazia com que eu quisesse cada vez mais esconder minha deficiência. Me esconder. Além de toda tensão que eu sentia nos lugares em que ia, sempre procurando a referencia de lábios para ler. Hoje percebo que esconder a minha deficiência é algo que não me auxilia, uma vez que quando estou ambientes ruidosos, o entendimento de uma conversa fica prejudicado, as pessoas devem saber não apenas que sou deficiente auditiva, mas também que devem falar de frente para mim.

 Essa postura que nós, deficientes auditivos oralizados, adotamos pode ser justificada pela fala de Vigotski (1896 -1934), grande teórico da psicologia e da educação, que mostra que o ser humano se constitui a partir da sua relação com outro. Nesta relação com outras pessoas e o mundo é que vamos nos significando, construindo nossa identidade.  Assim, numa sociedade que valoriza desde os primórdios que as pessoas sejam “perfeitas” e saudáveis, todos querem atingir esse ideal, assim como as adolescentes querem todas atingir o padrão de beleza, super valorizado, da modelo Gisele Bündchen.  Queremos ser aceitos e amados, muitas vezes não conseguimos olhar para nós mesmos, porque os outros a nossa voltam sentem dificuldades de aceitar e aí ouvimos coisas do tipo: “Ah, mas você usa AASI ou IC e ouve tão bem, você não é surdo”, surte quase o mesmo efeito de dizer à um cadeirante que, como ele se desloca com a cadeira de rodas, não é deficiente físico.

Um outro exemplo que podemos dar do preconceito em nossa sociedade aparece claramente quando uma mulher grávida ouve a famosa frase: “o importante é que venha com saúde/ ou que seja perfeito”.  Pergunte a uma mãe de deficiente se ela amou menos o filho porque ele teve um problema de saúde ou se ele nasceu ou ficou deficiente. Claro que a família, além de passar pelo processo de adaptação com a chegada do novo bebê, tem mais uma preocupação, que diz respeito a sua saúde e/ou deficiência, mas o importante é que o bebê venha e seja feliz, porque mesmo que ele não tiver saúde ou não for perfeito, vai continuar sendo amado.

As manifestações de preconceito nos dizem que não estamos dentro do padrão definido pela sociedade. Quando um deficiente auditivo é impedido de frequentar um lugar ou de poder se candidatar a uma vaga em uma escola ou emprego, é fácil denunciar. Quando as pessoas do nosso circulo intimo esbravejam coisas do tipo: “Por um acaso você é surda?” Ou “é uma surda mesmo!!”, ou a pessoa fala que não vai repetir o que disse, que você deveria ter prestado atenção, ou ainda situações de risadinhas e gozações que o surdo pode não ouvir, são situações de exclusão e preconceito difíceis de serem enfrentadas.  Bullying também é uma forma de preconceito e às vezes só conseguimos perceber pelas expressões faciais e risadinhas, muitas vezes não entendemos o que está sendo dito perto de nós. E quando isto vem de pessoas do circulo mais próximo, como escola ou trabalho, faz com que o deficiente auditivo se sinta diminuído e sem reação, o que não significa que ele não saiba reconhecer. Muitas vezes pensamos que somos nós que não ouvimos que estamos errados e isso é um grande erro, nos colocamos em situações que nos expomos para ser magoados ou culpados por algo que não é uma ação intencional (no caso não ouvir ou não entender).

Uma das formas de combate ao preconceito ainda é a informação. Conseguir conversar com as pessoas esclarecendo suas necessidades, tomamos, por exemplo: falar de frente, falar alto, mas não gritar, repetir sempre que necessário ou chamar com um toque, situa o outro sobre os nossos limites e evita situações embaraçosas.

A psicoterapia me auxiliou no fortalecimento da autoestima, passei a reconhecer a hora de ouvir, assim como a de não ouvir. Sim, eu tiro os AASI quando bem entendo. As situações de preconceito aos poucos foram me mostrando quem são as pessoas que merecem estar ao meu lado, minha amizade e minha dedicação. No caso de familiares, o profissional pode auxiliar com orientações para fortalecimentos dos laços de confiança, a superação dos sentimentos negativos e os pré-conceitos que precisam ser superados.

Agradeço a oportunidade de poder escrever sobre isso e coloco-me a disposição para eventuais dúvidas.

Raquel Alves Cassoli”.

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