44 - O que são otites e como se proteger delas?

Proteja-se das otites nesse inverno!

Quem não tem lembranças de ter passado por pelo menos um episódio de dor de ouvido na infância? Essas dores podem ter variadas causas, e uma das mais comuns são as inflamações no sistema auditivo. Tais processos inflamatórios recebem o nome de otites, que podem ser externas ou médias.

As otites externas são as inflamações da pele do conduto auditivo externo. Costumam acontecer principalmente durante o verão, por acúmulo de água no ouvido ou até por irritação da pele por introdução excessiva de cotonetes para limpeza no canal auditivo. Já as otites médias não possuem relação direta com a entrada de água no ouvido, pois a inflamação nesses casos se localiza no espaço profundo ao tímpano, conhecido como orelha média. Mais comuns durante o inverno, pela maior incidência de gripes e resfriados, as otites médias costumam ser causadas por infecções advindas do nariz e da garganta, vírus, bactérias ou até alergias.

Os principais sintomas das otites são a sensação de “ouvido cheio”, obstrução da passagem de som pelo canal auditivo, zumbidos, pressão ou dores nos ouvidos. De forma geral, as otites podem afetar mais as crianças, por duas razões principais. A primeira é porque o desenvolvimento do sistema imunológico ainda está ocorrendo na infância, o que abre brechas para a instalação mais fácil de vírus e bactérias. A segunda razão é que a tuba auditiva (espaço interno de conexão entre o ouvido médio e a parte superior da garganta) é mais curta e horizontal do que nos adultos, o que propicia a passagem de secreções e microrganismos do nariz para o ouvido.

Mas, independentemente da fase da vida, as otites, se não forem tratadas corretamente com medicamentos ou cirurgias (em alguns casos mais graves), podem apresentar grandes riscos à saúde, pois a infecção no ouvido pode migrar para outras partes da cabeça, como as meninges e o cérebro. E, para quem tem Implante Coclear, o risco de contrair meningite é maior (veja aqui), então se faz ainda mais necessária a prevenção de quadros gripais e otites. Além disso, quadros repetitivos (crônicos) de otites médias, com o passar do tempo, podem causar perda auditiva.

Entrevista com Otorrinolaringologista

A ADAP entrevistou o otorrinolaringologista Dr. Luciano Moreira, médico do Hospital São Vicente de Paulo/RJ e chefe da Equipe Sonora, para esclarecer algumas dúvidas sobre as otites e Implante Coclear. Acompanhe a entrevista completa a seguir.

1) Existe mais de um tipo de otite média? Se sim, quais são?

Dr. Luciano: Sim. A otite média aguda é o tipo mais clássico de “dor de ouvido”, aquela que costuma aparecer durante um resfriado ou outra infecção da via aérea. Pode cursar com dor intensa e febre, especialmente nas crianças. Já a otite média com efusão é resultado de acúmulo de secreções na orelha média, às vezes sem infecção de bactérias ou vírus. Não costuma trazer febre e raramente causa dor. Seus principais sintomas são perda de audição e plenitude auricular (sensação de ouvido "cheio").

2) Quando se fala em otites, outra palavra também pode vir associada: colesteatoma.  Qual é a diferença entre esses dois?

Dr. Luciano: As otites podem ser classificadas conforme a duração dos seus sintomas, em agudas ou crônicas. O nome correto do colesteatoma é "otite média crônica colesteatomatosa", enquadrando-se assim num dos tipos de otites crônicas. Quanto à causa da otite colesteatomatosa, existem diferentes teorias, mas em muitos casos sua origem está ligada ao passado de infecções repetidas do ouvido.

3) As otites podem interferir no funcionamento do Implante Coclear?

Dr. Luciano: As otites médias e externas não alteram o funcionamento eletrônico do Implante Coclear. Frente ao quadro de otite média no paciente implantado, nossa principal preocupação é que as bactérias causadoras da infecção possam usar a abertura que fizemos na cóclea para inserir os eletrodos como uma via de passagem para causar complicações graves, como meningites ou abcessos cerebrais. Por isso, a maioria das equipes recomenda que os pacientes sejam vacinados contra os pneumococos, bactérias causadoras de otites e meningites.

4) De fato, uma pergunta muito recorrente atualmente é quanto às recomendações de vacinas de gripe para os implantados. Qual é a importância de tais vacinas para ajudar a prevenir as otites e/ou meningites?

Dr. Luciano: A principal recomendação de vacinação nos implantados é contra as bactérias do tipo pneumococo, com mencionei anteriormente. Nos EUA também é padronizada a vacinação contra o Haemophilus Influenzae. Entretanto, sabemos que a gripe pode abrir espaço para o aparecimento de infecções bacterianas ditas secundárias, dentre elas a otite média. Assim, a vacinação contra a gripe é recomendada em todos os implantados.

5) Crianças com otite média de repetição ou adultos com colesteatoma podem implantar? Quais os cuidados a mais que se devem ter nesses casos?

Dr. Luciano: No caso de otites médias ou agudas crônicas em candidatos ao implante, esses processos devem ser tratados com medicamentos ou cirurgias antes de implantarmos, pelos riscos acima descritos. Em alguns pacientes precisamos colocar tubos de ventilação ou fazer cirurgias do tímpano e da mastoide.

6) E, em relação ao Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI), o que se recomenda quanto ao uso quando a pessoa está com otite?

Dr. Luciano: Em caso de otites externas e médias agudas, o paciente deve interromper o uso do AASI até a cura do processo. Nos pacientes com otite média com efusão, não havendo dor ou inflamação, o AASI pode e deve ser mantido durante o tratamento.

Cuidados com os ouvidos e com a saúde

Geralmente, o tratamento medicamentoso para as otites receitado por otorrinolaringologistas é o suficiente para reverter a infecção. Raros são os casos em que se necessita de cirurgias para conter esses quadros clínicos das otites. A ADAP encontrou, entre os seus associados, uma dessas poucas histórias, e que envolveu o Implante Coclear, inclusive. A fonoaudióloga Nailma Arraes nos deu o depoimento abaixo de superação de uma otite pela sua filha usuária de IC, Bianca Arraes, quando esta era pequena.

“Bianca estava com cinco anos, implantada fazia um ano na orelha direita. Nunca teve histórico de otite antes. Viajamos de férias e ela tomou muito banho de mar e de mangueira. Quando retornamos para nossa cidade, Itabuna/BA, ela reclamou de dor no ouvido implantado. Fomos ao otorrino, que deu diagnóstico de otite, e imediatamente iniciamos o antibiótico via oral. Mas a otite não cedeu. Entrei em contato com o Centro de Implante, ela foi medicada com várias injeções de antibiótico e mesmo assim a otite não cedeu. O médico informou que teria que fazer uma cirurgia para retirada do implante, pois a infecção, nesse estado, poderia causar uma meningite. Com muita tristeza, Bianca internou para a retirada do IC, e posso dizer que foi um dos dias mais difíceis da minha vida! Voltamos para nossa cidade depois, e ela se recuperou totalmente da otite. Desde esta época, Bianca passou a usar protetor de ouvido de silicone, feito sob medida, para proteger o ouvido da entrada de água, até os dias de hoje ela usa, inclusive para tomar banho. Após seis meses da cirurgia, queríamos o reimplante! Ela foi chamada e foi reimplantada com sucesso, porém, na orelha esquerda, por opção médica, pois havia a possibilidade de não conseguir colocar todos os eletrodos na direita, por conta da infecção que levou à ossificação da cóclea. Ela nunca mais teve outra otite! O resultado do implante foi fantástico na qualidade de vida de Bianca, desenvolvimento dentro da normalidade, com ajuda da terapia fonoaudiológica”.

A história de Bianca teve ainda mais outro final feliz: anos depois, ela optou por tentar o implante na cóclea ossificada pela otite. Apesar de nem todos os eletrodos serem inseridos por completo, ela teve uma boa resposta auditiva. “Com um mês da ativação desse lado, Bianca começou a ter sensação auditiva, foi melhorando e atualmente ela faz discriminação de palavras em grupo de oito, em conjunto fechado. Ela relata que está feliz com os resultados, pois sabia das dificuldades deste ouvido. Além do mais, ela acha que esta orelha ajuda a outra, o som fica mais claro e já não consegue ficar apenas com o implante mais antigo. Enfim, percebemos pela história de Bianca que todas as tentativas são válidas, desde que as expectativas estejam adequadas”, conta a mãe e fono Nailma.

Os cuidados recomendados para se proteger das otites são vários, entre eles: usar tampão para atividades aquáticas, secar bem os ouvidos com toalha, não fazer uso excessivo de cotonetes, cuidar de quadros alérgicos e de gripes (sempre evitando o acúmulo de secreções nasais e da garganta), não usar remédios sem prescrição médica e se vacinar contra a gripe todo ano. Esse tipo de vacina é aplicado gratuitamente a usuários de IC e também para quem vai ser implantado, mediante a apresentação de um receituário médico indicando o uso do dispositivo pelo paciente.

 

* Créditos das fotos: BruceBlaus/Wikipedia.org (primeira imagem) e arquivos pessoais dos entrevistados (segunda e terceira imagens).

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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