21 - Bebês e crianças podem receber um IC? Quando devo fazer essa escolha para o meu filho?

Implante Coclear e o Desenvolvimento de Crianças com Surdez Pré-Lingual

Uma das questões mais comuns que surge aos pais de crianças diagnosticadas com deficiência auditiva severa ou profunda, quando estes optam pela realização da cirurgia do Implante Coclear, diz respeito à idade adequada para efetuar tal procedimento e as consequências que essa decisão pode ocasionar ao desenvolvimento de seus filhos. Diferentemente dos casos de surdez pós-lingual (isto é, adquirida após a aquisição da linguagem oral), indivíduos que já nasceram com uma grande perda auditiva ou que a adquiriram antes dos três anos de idade encontrarão dificuldades na aquisição espontânea do seu idioma materno, sendo recomendada a intervenção familiar, médica e fonoaudiológica o quanto antes para evitar atrasos no desenvolvimento linguístico e no aprendizado dessas crianças.

A fonoaudióloga da ADAP, Marcella Giusti, explica que a detecção da deficiência auditiva deve ser realizada nos primeiros meses de vida, pois a precoce identificação possibilitará intervenção imediata, oferecendo melhores condições para o desenvolvimento da fala, linguagem, aspectos sociais e educacionais da criança, permitindo um prognóstico mais favorável em relação ao desenvolvimento global da mesma. O diagnóstico audiológico realizado durante o primeiro ano de vida possibilita a intervenção ainda no período crítico de maturação e plasticidade funcional do sistema nervoso central do indivíduo.

Em 02 de agosto de 2010, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o projeto de Lei 12.303/10, que obriga maternidades e hospitais públicos do país a realizarem de forma gratuita o teste da orelhinha nos bebês nascidos em suas dependências. No entanto, os profissionais envolvidos devem ficar atentos às crianças que não apresentarem resultados satisfatórios nos procedimentos propostos e garantirem que as mesmas sejam encaminhadas para um programa de avaliação e reabilitação auditiva.  Ressalta-se também que o teste da orelhinha trata-se de uma triagem auditiva, que o simples passar no procedimento não exclui completamente a possibilidade da deficiência auditiva. Portanto, as famílias e os profissionais que têm contato com as crianças devem estar atentos e preparados para identificar possíveis alterações/atrasos posteriores no desenvolvimento e o encaminhamento para avaliação audiológica diagnóstica.

A preocupação com a intervenção precoce, principalmente nos casos de deficiência auditiva neurossensorial severa/profunda bilateral se dá devido a estudos que comprovam que a idade na cirurgia, visto a possibilidade de indicação do recurso do implante coclear, tem sido relevante nos prognósticos. Algumas dessas pesquisas mostraram que as crianças implantadas antes dos três anos de idade alcançam resultados mais rápidos em relação às crianças operadas em idade mais tardia. (Kirk et al.,2002 e Baumgartner et al.,2002).

No entanto, outros aspectos também influenciam o desenvolvimento das habilidades auditivas e de linguagem, além da idade da intervenção médica, como por exemplo, o tempo de privação sensorial auditiva, o tempo de uso do dispositivo e o grau de permeabilidade da família ao processo terapêutico. As condutas de intervenção constituem-se em um processo multifatorial e os efeitos da interação destes aspectos podem sim interferir no desenvolvimento global da criança.

Embora haja a preocupação embasada referente à idade de indicação do Implante Coclear, nem toda criança com perda auditiva severa ou profunda dependerá essencialmente do IC para desenvolver a linguagem nos primeiros anos de vida. Fatores como o tipo e grau da perda auditiva, a estimulação/envolvimento familiar, o uso dos Aparelhos de Amplificação Sonora Individual e o acompanhamento fonoaudiológico precoce podem promover um bom desenvolvimento linguístico no indivíduo, dependendo de suas características pessoais, de seus esforços e/ou aptidão inata.

Nesse caso, temos como exemplo a história de Letícia Nascimento, de quinze anos. Letícia nasceu com surdez profunda bilateral, mas foi apenas quando completou doze anos que resolveu optar pelo IC. Ela conta como foi o seu desenvolvimento linguístico antes da cirurgia. “Uso o AASI desde os dois anos de idade. Fiz fono dos dois até os treze anos. Antes do IC era difícil. Tive um pouco de dificuldade, mas não muito devido à minha inteligência e esforço. Aprendi leitura labial, que até hoje faço. Minha única dificuldade era compreender os sons, vozes e etc. Tinha que conversar com a pessoa cara a cara para poder ler os lábios. Minhas notas na escola eram boas. Mas depois do IC melhorou muito”, relata Letícia.

Em outros casos, por exemplo, algumas crianças que forem implantadas mais tardiamente podem também recorrer e se adaptar ao uso da Língua de Sinais (LIBRAS) visando à complementação/facilitação de seus recursos comunicativos, como é o caso de Ana Júlia Kemer, de oito anos. Sua mãe, Geiciane Lemos, conta que a Ana foi implantada apenas no começo desse ano, mas que começou a aprender LIBRAS por volta de dois anos de idade. Hoje ela domina totalmente a Língua de Sinais e iniciou a aprendizagem do português escrito e oralizado. “A professora falou que ela é muito inteligente e é a melhor aluna da sala. A LIBRAS não atrapalhou em nada em relação ao implante, em minha opinião, só ajudou, pois é preciso dar a ela um conceito das coisas. Quando ela ouve algum barulho, que saber o que é e de onde vem, aí usamos a LIBRAS para explicarmos, mas sempre falando junto, então ela se sente compreendida e isso é muito importante para a inclusão dela na sociedade”, comenta Geiciane.

O apoio médico, fonoaudiológico e familiar na reabilitação da criança implantada

O acompanhamento médico, fonoaudiológico e familiar deve ter como objetivo facilitar e ampliar as oportunidades de acesso à linguagem oral através da audição da criança com perda auditiva. Chega a acontecer, em muitos casos, que, após receberem o diagnóstico da surdez da criança, os pais deixarem de falar ou diminuírem a frequência do diálogo com ela, receosos de que não serão ouvidos ou compreendidos pelo seu filho. Essa atitude é um dos maiores impedimentos para o desenvolvimento da criança, pois os estímulos auditivos devem ser abundantes desde a mais tenra idade para compensar a deficiência na percepção dos sons.

O incentivo familiar deve estar em sintonia com a intervenção médica e fonoaudiológica, pois a cirurgia e a ativação do IC por si só não promove todo o desenvolvimento esperado na criança. A parceria com a escola na busca do auxílio às necessidades auditivas do indivíduo também é de importância fundamental, como ilustra o caso de Danilo Thomaz, de nove anos de idade e implantado há sete anos. Sua mãe, Sílvia Thomaz, conta sobre o rápido desenvolvimento do seu filho. “Com três semanas de ativação do IC, ele já olhava pra nós quando o chamávamos pelo nome. O desenvolvimento dele foi muito rápido. Ele fazia terapia duas vezes por semana e ia na escolinha meio período, a fono sempre em contato com a escola e vice-versa. Essa parceria foi essencial para que tudo desse certo”, afirma Sílvia.

A família tem como papel a promoção da estimulação auditiva da criança, orientada pelo profissional fonoaudiólogo. O Implante Coclear funciona como uma prótese, porém, ele não consegue reproduzir integralmente todas as nuances da audição humana natural. O indivíduo com surdez pré-lingual e implantado na infância deve aprender a detectar e compreender os sons ouvidos, e com isso desenvolver a sua fala de acordo com o seu próprio ritmo, que pode ou não ser o mesmo que o de uma criança ouvinte. Cada indivíduo é único e deve-se respeitar seu tempo de desenvolvimento.

Andréa Sobral, mãe da implantada Maryana Sobral Delasta, de quatro anos de idade, relata como foi o processo familiar de estimulação auditiva de sua filha. “Quando fizemos o primeiro IC, a Maryana tinha um ano e dois meses de idade, era um bebê. Mas a gente, mesmo com todas as limitações, estimulávamos muito, cantávamos e conversávamos muito com ela. Aí, quando ativou o IC, continuávamos com essas atitudes, a grande e melhor diferença era que ela agora dava retorno, repetia um som aqui e outro ali. Para falar a verdade, achávamos que ia ser maçante a habilitação auditiva, mas na pratica era muito prazeroso. Acho que o melhor é ver o interesse da criança, essa descoberta é mágica para todos os envolvidos. Sabe, é realizador saber o quanto pudemos ajudar a Maryana a construir o mundo dos sons dela. Foi assim, tijolinho por tijolinho”, conta Andréa.

Já Isabel Azeredo fala sobre os equipamentos e brinquedos que ajudaram no desenvolvimento auditivo de sua filha, que hoje está com cinco anos de idade. “Minha filha, Mirela Azeredo Martins, foi implantada com um ano e cinco meses. Antes do IC, ela usava o aparelho AASI desde os dois meses de idade. Ela foi estimulada desde muito cedo. Com dois meses de vida já fazia fono. Compramos vários brinquedos com sons, até um tambor de verdade nós conseguimos para trabalhar com ela em casa”, diz a mãe.

Embora essencial à adaptação anterior a indicação do Implante Coclear, o uso dos AASI, visto o grau da deficiência auditiva, em geral pode não acarretar em muitos benefícios para as crianças com perda auditiva  profunda. Este foi o caso de Júnior Batista, implantado de seis anos de idade, como relata sua mãe, Neide Aparecida Batista. “Descobri o problema da audição do Júnior quando ele tinha nove meses. A partir daí, iniciamos o tratamento dele, que veio todo o processo de exames, aparelhos AASI e terapia individual e em grupo. Porém, durante dois anos de uso dos AASI, ele não obteve resultado algum tanto na audição como na fala. Então iniciamos uma nova batalha para conseguir o Implante Coclear, que durou um ano. O IC foi a melhor coisa que fiz para a vida do meu filho”, conta Neide.

O desenvolvimento da linguagem e o papel do profissional fonoaudiólogo

As etapas de aquisição e desenvolvimento da linguagem são as mesmas para qualquer criança, e se dividem em três níveis, de acordo com a categoria linguística (fonético-fonológica, sintática, pragmática e semântica) a ser mais desenvolvida em cada um deles. Primeiramente, vem o nível Pré-Linguístico, que ocorre até os quinze meses de vida da criança. Aqui se apresenta o primeiro tipo de comunicação, o choro e os grunhidos do bebê, que, com o passar do tempo, começa a emitir os primeiros sons, repetitivos e contínuos, os quais pouco a pouco vão se delimitando e se constituindo em fonemas (unidades sonoras). Por volta do primeiro ano de vida são ditas as primeiras palavras.

O Primeiro Nível Linguístico, que vai dos quinze meses até os cinco anos de vida, é caracterizado pela aquisição de novas palavras, experimentações sonoras e combinações dos vocábulos, que serão utilizados na construção das frases (organização da sintaxe gramatical). Ao final deste período, a fala da criança já é semelhante a do adulto em termos de complexidade e capacidade de abstração.

O Segundo Nível Linguístico se subdivide em duas etapas. A primeira, que vai dos cinco aos sete anos, coincide com o ingresso no período escolar. Aqui ocorre o aprendizado do código gráfico e um maior desenvolvimento da oralidade (pragmática). Esta é a etapa mais propícia para a detecção de possíveis falhas ou dificuldades no desenvolvimento da linguagem. Já a segunda etapa, que ocorre dos sete aos doze anos, se caracteriza pelo aumento do repertório vocabular (aspecto semântico) da criança e a consolidação de suas habilidades linguísticas.

O papel do profissional fonoaudiólogo neste processo, além da avaliação audiológica que permita classificação da deficiência auditiva, intervenção com adaptação de recursos reabilitativos (IC ou AASI), é também promover a estimulação/desenvolvimento das habilidades auditivas e da fala, a partir de sessões terapêuticas direcionadas e que visem também a orientação dos cuidadores envolvidos na rotina do paciente, objetivando a criação de um ambiente de convívio altamente estimulador. Um dos métodos que aborda este objetivo é o chamado Método Aurioral, por priorizar a integração da audição na comunicação da criança com deficiência na percepção dos sons. As quatro habilidades auditivas principais a serem trabalhadas por este profissional e cuidadores abrangem a detecção auditiva (a criança deve perceber a presença e a ausência dos sons), a discriminação auditiva (perceber a diferença entre dois ou mais sons), o reconhecimento auditivo (identificação do som e da fonte sonora) e a compreensão auditiva (entender e interpretar a fala humana).

Dicas para o desenvolvimento de seu filho

A seguir, confira dicas e orientações aos pais para ajudar no desenvolvimento de seu filho com deficiência auditiva, segundo o Método Aurioral:

1)      Estimule auditivamente seu filho desde cedo. Converse, brinque, interaja com ele por meio da voz, mesmo que o retorno da parte dele seja inicialmente pequeno. Brinquedos e atividades sonoras são bastante recomendados nesta fase.

2)      É fundamental, nos primeiros anos de vida, realizar o maior número possível de interações um-a-um com a criança, para depois introduzi-la a ambientes sonoros mais complexos e com mais interlocutores.

3)      Seja paciente quando tiver que repetir algo que já foi dito à criança. Ela pode não ter entendido a mensagem mesmo que tenha prestado atenção. Eleve o seu tom de voz e fale com clareza. Isto não significa ter que gritar com seu filho. O grito distorce as palavras e causa ainda mais dificuldades na compreensão da mensagem sonora.

4)      Tenha em mente que, por mais bem adaptada a criança esteja com os AASI ou IC, ela poderá buscar apoio visual para uma maior eficiência e segurança em sua comunicação e expressão. Sendo assim, utilize a linguagem corporal e as expressões faciais se perceber a necessidade visual de seu filho, olhe para a criança quando ela estiver falando, para lhe transmitir confiança e segurança, e incentive-a a aprender a leitura labial como um método de apoio a ser usado quando necessário nas conversações.

5)      Tome cuidado ao corrigir os erros de fala de seu filho, pois a advertência em excesso pode desestimular a criança em seus esforços para utilizar a audição e a fala em sua comunicação. Dirija as críticas ao comportamento errado, e não à criança (por exemplo, diga “A palavra tal se pronuncia de outro jeito”, e não “Você está falando errado!”). Fortaleça a autoestima de seu filho com deficiência auditiva ao focar nas suas conquistas, e não no que ele não consegue fazer.

6)      Dê oportunidades para a criança vivenciar todo tipo de situações auditivas, como festas, diálogos em grupo, ouvir músicas. Ensine-a a ouvir e repetir todos os sons do ambiente, buscando com isso diversificar as suas experiências sonoras.

7)      Incentive seu filho à prática da leitura e da escrita como um recurso para a aquisição de novas palavras e expressões linguísticas. Também, no diálogo com a criança, busque ampliar o seu vocabulário ao empregar novos termos nas conversas.

8)      Dê continuidade em casa aos exercícios passados pela fonoaudióloga. É somente com a prática diária que a criança com deficiência auditiva terá uma melhor reabilitação.

 

* Créditos das fotos: arquivos pessoais dos entrevistados.

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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