25 - Idosos podem receber um Implante Coclear?

Surdez e Implante Coclear na terceira idade

A surdez é a deficiência sensorial mais comum na terceira idade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um terço das pessoas com mais de 65 anos e metade das com mais de 75 anos apresentam algum grau de deficiência auditiva. Com o aumento da expectativa de vida na sociedade contemporânea, cada vez mais pessoas chegam a uma idade em que começam a perceber dificuldades para ouvir.

Maria Dagmar de Andrade Soares cita, em sua tese de mestrado, um estudo realizado por Quintero, Marotta e Marone (2002), que concluiu que as causas mais comuns de deficiência auditiva na terceira idade são devido à presbiacusia (73%), à otosclerose (7%) e à otite média crônica (4,3%). Em seu próprio experimento, a pesquisadora também encontrou resultados semelhantes: presbiacusia (79,5%), otosclerose (9,5%) e otite média crônica (8,4%).

O que é a presbiacusia?

A presbiacusia é a perda ocasionada pela redução da sensibilidade auditiva. Com o passar dos anos, o corpo humano, devido ao envelhecimento, vai se alterando, e esse processo também reflete na audição. A pele do pavilhão auditivo perde sua elasticidade (fazendo com que ele aumente de tamanho), o tímpano fica despolido, a movimentação dos ossos internos do ouvido diminui, ocorre perda das células ciliadas das cócleas e do nervo auditivo. Além disso, as funções do processamento auditivo central também podem ser afetadas, ocasionando dificuldades em habilidades auditivas como a localização e a interpretação dos sons.

A perda auditiva por presbiacusia costuma ser do tipo sensorioneural bilateral para sons de alta frequência (agudos), e pode vir acompanhada de zumbido, vertigem e disacusia (mal-estar relacionado aos sons ouvidos). Os fatores que podem agravar ou acelerar a presbiacusia são a exposição frequente a ruídos, uso de medicação ototóxica, diabetes e herança genética.

Outros fatores que causam a deficiência auditiva na terceira idade são os mesmos que podem ocorrer em qualquer fase da vida, como por sequela de doenças (caxumba, sarampo), acidentes e perda auditiva súbita, de causa indefinida, como explica o Dr. Luciano Moreira, médico do Hospital São Vicente de Paulo e chefe da Equipe Sonora. “Na maioria das vezes, as perdas auditivas da terceira idade se apresentam com progressão lenta, resultado da presbiacusia (perda de audição pela idade). Entretanto, outras causas como traumatismos cranianos, quadros autoimunes, toxicidade por medicamentos ou a surdez súbita, podem levar à surdez de maneira mais acelerada”.

A perda auditiva na terceira idade demanda atenção e cuidados redobrados, pois pode ocasionar depressão, maior risco de demência e até atrofia cerebral, pela diminuição de estímulos sociais à pessoa idosa, como comenta o Dr. Luciano. “Esse é um dos temas mais fascinantes estudados nos últimos anos. De fato, depois de se entender a importância de se avaliar a audição como um fenômeno também cerebral, uma série de estudos vem mostrando que a perda do estímulo auditivo em áreas do cérebro, mesmo nas perdas leves ou moderadas, leva não só a reorganização dos padrões de ativação cerebral, mas também à perda do volume da massa encefálica e aumento no risco de demências a Alzheimer. Pelo lado bom, já há estudos mostrando que o uso de aparelhos auditivos precocemente ou de Implantes Cocleares nas perdas mais graves, pode minimizar, ou mesmo anular esses riscos”.

Utilizando AASI’s ou Implante Coclear

Na pesquisa de Maria Dagmar de Andrade Soares, constatou-se que, de um número de 440 idosos, 70,9% deles tinham perdas de grau moderado e/ou moderadamente severo, portanto, a grande maioria (73,9%) utilizava Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI), que é o tipo de aparelho indicado para essa faixa de perda. Já para as perdas auditivas de grau severo a profundo, o mais indicado é o Implante Coclear (IC), ainda pouco divulgado para os casos de surdez na terceira idade. Segundo a Ear Foundation, no Reino Unido apenas 5% dos idosos com indicação para o Implante Coclear são, de fato, implantados. Uma curiosidade é que, na Europa, há relatos de uma pessoa implantada com 99 anos. No Hospital das Clínicas da FMUSP, há paciente que foi implantado com 84 anos de idade.

Com isso, vê-se que o uso do IC não tem restrição de idade máxima, devendo apenas ser observadas as condições clínicas gerais do paciente para que ele possa se submeter à cirurgia. Segundo o Dr. Rogério Hamerschmidt, chefe do Serviço de Implante Coclear do Hospital de Clinicas da UFPR, alguns exames e cuidados específicos são necessários. “A avaliação para a cirurgia deve ser bem minuciosa, incluindo a avaliação cardiológica, pulmonar, vários exames de sangue e avaliação das condições gerais do paciente para averiguar se ele pode se submeter à cirurgia; em muitos casos fazemos inclusive com anestesia local e sedação para diminuir os riscos nesta faixa etária de uma anestesia geral”.

Em relação à terapia fonoaudiológica na terceira idade, a fonoaudióloga Renata Crifal, que atende nas clínicas CRIFAL e R&V Fonoaudiologia, no Rio de Janeiro, explica algumas particularidades dessa questão. “É o velho clichê, mas cada caso é um caso! Normalmente, quem não se adaptava ao AASI responde melhor ao IC e a reabilitação. Às vezes, pedimos que a frequência da fonoterapia seja aumentada, porque em alguns casos o paciente idoso não tem com quem treinar e não usa quase nada tecnológico. A intensidade dos exercícios é aumentada na terapia então, no número de duas sessões semanais”.

Uma barreira para o uso do IC, ou até mesmo dos AASI, na terceira idade, pode ser, além do desconhecimento dessas novas tecnologias, o preconceito envolvendo o uso de próteses no corpo humano. Os tempos mudaram, precisa-se de uma conscientização cada vez maior sobre a questão da deficiência para os mais velhos, com o objetivo de desassociar a perda de um sentido do corpo com a noção de incapacidade. A busca por uma maior qualidade de vida deve ser a motivação para o retorno ao mundo dos sons, se o paciente assim desejar.

Experiências com o IC na terceira idade

A ADAP entrevistou três usuários de Implante Coclear que foram implantados na terceira idade. Luiz Henrique Franco Bueno usa IC bilateral. Implantou o primeiro ouvido há cinco anos, em 2011, quando estava com 60 anos, e o segundo IC, em 2015. Sua esposa Lurdes Rodrigues conta um pouco da história dele e dos resultados obtidos com os implantes.

“A causa da surdez foi por sarampo quando ele tinha 11 anos de idade e manifestou-se gradativamente. Ele passou a usar aparelhos aos 17 anos, um AASI em um único ouvido, e de tempo em tempo havia revezamento, mas a perda foi se acentuando nos dois ouvidos. Ultimamente, ele só tinha resíduo de audição, até que se optou pelo IC. As cirurgias foram tranquilas, na primeira ele teve tonturas previsíveis, já na segunda, nem tontura teve. A adaptação no primeiro IC foi demorada, mas no segundo foi mais fácil e rápida. Foi um sucesso e ele está muito feliz. Segundo o Licke, antes ele corria atrás do som, mas, hoje, o som chega até ele!”, relata Lurdes.

Já Maria Lucia Lima Cardoso (foto), de Campinas/SP, foi implantada bilateralmente de forma simultânea em 2013, com 69 anos. “Sou surda de nascença, usei AASI até implantar, antes dos 70 anos. Sempre tive perda auditiva, mas soube somente há quatro anos a causa dela: Síndrome de Pendred, que ocasiona perda profunda da audição”, explica. Com os implantes, ela já consegue detectar os sons, e faz reabilitação auditiva com fonoaudióloga para treinar a discriminação auditiva.

Também com perda auditiva devido a causas genéticas, Ita Estela Awensztern começou a usar AASI quando tinha 20 anos, e agora usa IC em um dos ouvidos, que operou no final de 2014, com 72 anos de idade. “Tem muitos sons que, só com o AASI, eu não ouço, como o pisca alerta do carro. Na terceira vez que fiz o mapeamento do IC, em novembro de 2015, a fono fez teste só com o Implante, mas com uma revista escondendo a boca. Eu tive 80% de melhora auditiva com o IC. Até agora não fiz fonoterapia, porque só tem uma fono aqui em Jundiaí especializada em implantados, mas ela não tem horário para mim ainda. Gosto de ver novela, uso fone de ouvido e coloco legendas, mas tem canais que não tem legenda e dá para eu entender mesmo assim”, conta Ita.

 

* Créditos das imagens: reprodução (primeira foto) e arquivo pessoal (segunda foto).

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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