46 - Como foi a evolução dos aparelhos auditivos ao longo do tempo?

Conheça o Museu do Aparelho Auditivo e a história dos AASI

Grande parte dos atuais usuários de Implante Coclear (IC) já utilizaram os Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI) antes de serem implantados (ou, em alguns casos, ainda fazem uso deles em um dos ouvidos). Ao contrário dos IC, cujas funções são a decodificação e o processamento dos sons, os AASI são aparelhos que não precisam de cirurgia para serem utilizados, pois seu objetivo é somente a amplificação sonora. Sendo assim, possuem apenas uma parte externa, que se encaixa a orelha do usuário, e têm uma melhor indicação para perdas auditivas leves à severas.

Enquanto que os primeiros experimentos com a tecnologia dos IC datam de 1800, sabia que os antecessores dos AASI surgiram já em 1588? A história dos aparelhos auditivos está documentada e preservada no Brasil pelo Museu do Aparelho Auditivo, com localização na cidade de Franca/SP. O acervo foi idealizado pelo colecionador Frederico Guimarães Abrahão, que também é presidente da Direito de Ouvir – Aparelhos Auditivos, curadora do museu. Frederico conta que a origem de tudo foi quando conheceu sua esposa, que é fonoaudióloga. “Primeiro me apaixonei por uma mulher, depois pela sua profissão, e fiz dessa paixão meu trabalho também”, afirma.

A empresa Direito de Ouvir foi fundada em 2007, porém, desde 2001 Frederico colecionava AASI antigos. Com o crescimento de sua coleção, ele resolveu, em 2011, abri-la ao público. Com a ajuda de alunos do curso de História da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp/campus de Franca, foram catalogadas e organizadas as peças históricas, e o museu foi inaugurado em 16 de janeiro de 2013, no mesmo espaço da sede da Direito de Ouvir.

O museu é o único no Brasil com essa temática, e o 4º no mundo a ser criado. Os outros museus sobre aparelhos auditivos estão localizados em Stewartstown (Estados Unidos), em Lübeck (Alemanha) e em Buenos Aires (Argentina). Andrielle de Sousa, guia de visitas, comenta sobre o tamanho do museu em relação aos outros. “Em número de peças, nosso museu está em segundo lugar, atrás, apenas, do museu dos Estados Unidos. Recebemos cerca de 20 a 30 visitas por mês”.

O acervo conta com mais de 650 itens, entre aquisições e doações pessoais. Frederico comenta que costuma visitar antiquários e participar de leilões e de redes de colecionadores de vários países para caçar aparelhos auditivos. “Quanto mais antigo e amarelado pelo tempo, melhor”, relata sobre as peças que procura. Qualquer pessoa pode doar seus aparelhos, basta seguir as orientações dispostas na página on-line da instituição.

O site do museu também é outro destaque, tendo um acervo virtual disponível para consultas, com dados e imagens de cada tipo de aparelho, além de uma linha do tempo sobre a evolução tecnológica dos AASI. E, para as universidades e demais instituições, há o Projeto MIAPA – Museu Itinerante do Aparelho Auditivo, que visa promover o conhecimento acerca dos AASI, trazendo para outros lugares modelos de aparelhos representativos de cada período histórico, desde o seu surgimento. No momento, o MIAPA está em fase de reformulação, mas em breve voltará à ativa.

A evolução dos AASI

Os estudos sobre a condução do som no sistema auditivo humano têm seu início por volta de 1500. Já em 1551, um médico italiano, Girolama Cardano, publica um artigo intitulado “De Subtilitate”, que descreve o processo de condução auditiva óssea. São de 1588 que datam os primeiros relatos de aparelhos auditivos rudimentares: eram feitos de madeira e no formato de orelha de animais, com vistas a aumentar a área do pavilhão auditivo humano, ajudando na captação dos sons. Em 1640, ocorre a primeira tentativa de se criar um tímpano artificial.

As trombetas auditivas, que são relativamente conhecidas até hoje, já aparecem relatadas em estudos por volta de 1650, tendo sua popularização no século seguinte. A Trombeta Auditiva Collapsible (foto), de 1830, é a peça mais antiga do museu e, pelo tamanho do diâmetro de seu bocal (7 cm), acredita-se que ela foi projetada para um indivíduo com grande perda auditiva.

Já os tubos de conversação, criados em 1819, podem ser considerados os percursores dos Sistemas FM, já que a sua função era melhorar a inteligibilidade de determinada fonte de fala humana no ruído, e não só amplificar os sons. Na foto ao lado, há o Tubo de Conversação Auditube, de 1910, que está exposto no museu.

Também em exibição no museu estão as aurículas, um aparelho auditivo feito com cone de celuloide que pode ser acoplado às orelhas, deixando as mãos do usuário livres. O modelo II da marca FC Rein & Son, de 1885, foi projetado para perdas auditivas bilaterais e é composto de uma tiara com uma aurícula em cada extremidade (foto). Diz-se que esse tipo de aparelho melhorava significativamente, para os padrões da época, a inteligibilidade da fala.

Como exemplo evoluído do modelo dos primeiros aparelhos auditivos criados, o museu tem o Aparelho de Condução Óssea Audiphone Bernard (1890), de cor bege, magnetizado e fabricado na França. Ele se encaixa atrás das orelhas, de forma quase invisível, e ajuda na captação do som pelo pavilhão auditivo.

Após os modelos das aurículas, surgem os aparelhos miniaturizados, de inserção no ouvido (precursores dos intracanais atuais). Eles começaram a ser produzidos por volta de 1800. No museu, pode-se observar alguns exemplos dessa categoria, como os Dispositivos de inserção no ouvido Vibrafone Weiner Co. Feitos de prata, possuem palhetas metálicas internas que vibram com a passagem do som. Os ganhos auditivos proporcionados pelos aparelhos são mínimos, de modo que ficaram conhecidos como produtos fraudulentos.

Os aparelhos auditivos elétricos vieram somente nos últimos anos da década de 1890. O primeiro modelo a utilizar eletricidade para a amplificação dos sons foi o Aparelho de Carbono. O microfone utilizado nesse tipo de aparelho teve sua origem no telefone, uma descoberta também recente no período. O Aparelho de Carbono era composto de três peças: um fone de ouvido, um microfone no formato retangular (parecido com um rádio) e baterias de zinco-carbono, tudo conectado por fios. Na foto ao lado, temos o modelo Aparelho Auditivo de Carbono Acousticon SRD, de 1910.

Com a tendência da miniaturização, surgiram os Aparelhos Auditivos de Tubo à Vácuo (inventados em 1921 e que utilizava duas baterias) e os Transistores (de 1953, com uma só bateria). Eles eram pequenas caixinhas que poderiam ficar presas na cintura ou no bolso da calça, com fios que se ligavam a moldes auditivos nas orelhas. Na foto ao lado, observa-se um Aparelho Auditivo Transistor, modelo Beltone F (1956).

Nessa mesma época, fizeram sucesso os aparelhos auditivos invisíveis e disfarçáveis sob peças de roupas e acessórios. Um desses modelos disponíveis no museu é o Aparelho Auditivo com Brincos Sterling, de 1950. O acessório é feito de prata com pedras de marcassita, e o AASI fica totalmente oculto sob o brinco. “Na época, a preocupação em esconder a deficiência auditiva era mais visível no sexo feminino, por causa dos valores machistas de que a mulher tinha que ser perfeita para o homem”, explica Andrielle. De fato, até um poema do período, feito por Geni Ellinger em 1949, demonstra essa preocupação. “But she's sure that an aid would “spoil her looks”” (Mas ela tem certeza de que um aparelho auditivo “estraga sua aparência”, em tradução livre).

Para os homens, existiam também modelos de gravatas e óculos com AASI embutidos. No caso da gravata, o aparelho transistor ficava no prendedor do tecido, e os fios com os moldes passavam discretamente por trás das orelhas. Nos óculos, os aparelhos se situavam atrás das hastes, com os moldes encaixando-se nas orelhas. Na foto ao lado, tem-se o Aparelho Auditivo camuflado como prendedor de gravata Hal Hen (de 1955).

Finalmente, em 1955, foi criado o primeiro modelo de AASI Retroauricular analógico. O grande avanço desse tipo de aparelho foi contar com o microfone e o receptor dentro de uma mesma peça. No museu, há em exposição um dos primeiros modelos de retroauricular, o Beltone Minuet, de 1958 (foto). Os aparelhos intra-auriculares (entre eles, o tipo intracanal) vieram em 1983, e os modelos retroauriculares com sinal totalmente digital chegaram ao mercado por volta do ano de 1996.

Serviço

Todos os modelos de AASI apresentados acima, assim como muitos outros, e também livros, equipamentos médicos e fonoaudiológicos podem ser conferidos no Museu do Aparelho Auditivo, na cidade de Franca/SP. A entrada é gratuita, mediante agendamento das visitas pelos telefones 0800 941 5330 / (16) 3720-4562 ou pelo e-mail contato@museudoaparelhoauditivo.com.br. O Museu se localiza na Rua Batatais, nº. 1038, bairro Jardim Roselandia. Se você mora próximo ou está de passagem pela região, não perca a oportunidade de conhecer de pertinho os ancestrais dos seus aparelhos auditivos.

 

Reportagem e fotos por Ana Raquel Périco Mangili.

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