60 - O que é a LIBRAS e onde posso aprendê-la?

Conheça a LIBRAS - Língua Brasileira de Sinais

* Matéria publicada em abril de 2014.

Um dos requisitos para se conseguir a cirurgia do Implante Coclear para jovens e adultos no Brasil é que o paciente possua o domínio de um código linguístico e esteja em tratamento de reabilitação da linguagem oral. Porém, é fato que a adaptação ao IC varia de usuário para usuário. Enquanto a maioria dos implantados consegue compreender bem a fala humana e até fazer uso do telefone, alguns ainda possuem grande dificuldade nas conversações, mesmo após a cirurgia e acompanhamento fonoaudiólogo. Marcella Giust, fonoaudióloga da ADAP, explica que, em casos que o paciente ficou muito tempo sem ouvir ou que o nervo auditivo nunca foi estimulado, a recuperação total da capacidade de distinguir e compreender a fala humana se torna muito difícil ou demorada. Sendo assim, nesses casos, formas de linguagem alternativas se tornam extremamente úteis na socialização, sendo uma delas a LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais.

De acordo com o Censo IBGE de 2010 e o Portal de Notícias Terra, dos 9,7 milhões (5,1% da população) de brasileiros que possuem algum tipo de deficiência auditiva, 2,5 milhões não compreendem o idioma materno e não fazem uso da Língua Portuguesa. Apesar de não haver dados exatos do número de usuários da LIBRAS no Brasil, estima-se que grande parte desses 2,5 milhões de brasileiros optou por adotar exclusivamente essa língua de sinais. A esse número soma-se os adeptos do bilinguismo, ouvintes ou deficientes auditivos que conhecem o Português escrito e/ou falado e também a LIBRAS.

História e características da LIBRAS

A Língua Brasileira de Sinais é um idioma de modalidade gesto-visual que combina movimentos gestuais e expressões faciais com a finalidade de transmitir uma mensagem. A LIBRAS teve sua origem na Língua de Sinais Francesa, que foi trazida ao Brasil em 1856 pelo conde francês Ernest Huet, e a partir daí foi adotada pelas comunidades surdas brasileiras, que incorporaram expressões locais a essa língua e possibilitaram a ela uma evolução própria, independentemente de sua origem francesa.

Cada país possui sua própria língua de sinais, que independe do idioma nacional para ser estruturada (Brasil e Portugal, por exemplo, possuem línguas de sinais diferentes). Sendo assim, as línguas gesto-visuais são idiomas completos, com morfologia, sintaxe e semântica próprias, e podem ser usadas para expressar qualquer pensamento ou ideia, por mais abstratos que sejam. Assim como as línguas orais, a LIBRAS também possui variações e dialetos regionais, e é por meio dela que a pessoa surda adquire condições para o aprendizado do Português em sua modalidade escrita, garantindo dessa forma a sua inclusão na cultura nacional.

Depois de um longo processo de lutas sociais da comunidade surda, a LIBRAS foi oficializada no Brasil por meio da Lei 10.436, em 24 de abril de 2002, garantindo dessa forma alguns direitos básicos para esses cidadãos, como a possibilidade de solicitação de um intérprete em ambientes formais e de aprendizagem, como escolas e universidades, assim como poder contar com professores e fonoaudiólogos capacitados a lidar com as especificidades da comunidade surda, já que, a partir da referida data, a LIBRAS se tornou uma disciplina curricular obrigatória nos cursos de Magistério e Fonoaudiologia do ensino superior brasileiro.

As vantagens de se aprender LIBRAS vão além de conhecer outro idioma e poder se comunicar com a comunidade surda local. Segundo a linguista e pesquisadora Evani Viotti, da Universidade de São Paulo (USP), como as línguas de sinais são quadridimensionais, isto é, suas estruturas frasais são formadas pela profundidade, altura, largura e o tempo dos gestos, o aprendizado delas pode contribuir no desenvolvimento de uma alta habilidade cognitiva aos seus usuários. Porém, não são todos que conseguem se dar bem com esse idioma: quanto mais cedo se iniciar os estudos e maior for a dedicação pessoal, grandes serão as chances de sucesso e fluência nessa língua, e essa regra vale para qualquer idioma conhecido, oral ou gestual.

Para os interessados em aprender esse idioma, há, além de vários cursos de LIBRAS disponíveis na Internet, cursos presenciais da Língua Brasileira de Sinais. Em Bauru, são oferecidos pela Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais (Funcraf). Porém, vale a pena lembrar que o aprendizado da LIBRAS, assim como de qualquer outro idioma, só se torna realmente efetivo com a prática da referida língua no dia-a-dia.

Usuários de LIBRAS e Implante Coclear – Experiências

Na maior parte dos casos, os usuários de Implante Coclear e LIBRAS são bilíngues e aprenderam a língua de sinais para auxiliar na comunicação pessoal antes de serem implantados. Após a cirurgia, alguns deles conseguiram desenvolver a habilidade de compreensão de fala e passaram a usar o português nas conversações em seu dia a dia, junto com a língua de sinais, enquanto outros optaram por continuar utilizando a LIBRAS como idioma principal.

Geiciane Lemos, mãe de Ana Júlia Kemer, de oito anos e implantada unilateralmente há três meses, conta uma pouco da história de sua filha com a LIBRAS. “Ela começou a aprender Libras por volta dos dois anos, ainda na creche. Então hoje ainda faz aulas [desse idioma] e domina muito bem a linguagem, consegue manter uma conversa tranquilamente e faz os sinais muito rapidamente. Antes do implante, ela já falava algumas palavras, pois faz leitura labial e é muito esforçada”, diz a mãe.

Geiciane também conta que, justamente por Ana Júlia já ser fluente em LIBRAS, a família teve dificuldades em obter o implante pelo SUS. Mas, no fim, o médico autorizou a cirurgia. “Foi uma alegria total, conversamos com a Ana e vimos que deveríamos sim dar uma chance [de ouvir] a ela. A LIBRAS não atrapalhou em nada em relação ao implante, em minha opinião, só ajudou, pois é preciso dar a ela um conceito das coisas. Quando ela ouve algum barulho, que saber o que é e de onde vem, aí usamos a LIBRAS para explicarmos, mas sempre falando junto, [então] ela se sente compreendida e isso é muito importante para a inclusão dela na sociedade”, finaliza.

Aline Vendrame Cordeiro, implantada unilateralmente há seis anos e usuária de LIBRAS há mais de dez, também nos conta sobre a sua história. “Aprendi [LIBRAS] com 15 anos, quando ingressei na escola especial para surdos, o saudoso [colégio] Anne Sullivan, de São Caetano do Sul”, afirma. Tendo surdez profunda em ambos os ouvidos, Aline foi educada pelo método oralista antes de conhecer a LIBRAS. “Fiz fono desde os três anos, ouvia um pouco com o AASI. Porém, tive uma melhora tremenda [com o IC]. Para mim, ouvir música, falar no telefone, escutar de vez em quando uma conversa foi um milagre, pois nunca tinha conseguido essas coisas com o AASI. Com o IC é muito mais fácil, a voz é clara”, diz.

Já sobre a experiência com a LIBRAS, afirma que ainda utiliza esse idioma, principalmente quando está em companhia de outros surdos. “Eu prefiro conversar em LIBRAS com um grupo. A conversa flui naturalmente, você capta tudo. É difícil ler muitos lábios [referindo-se ao método da leitura labial]. Em LIBRAS não se tem esse problema, é tudo tão natural quanto a fala”, comenta Aline. E, em relação ao panorama da LIBRAS na atualidade, ela afirma que o número de usuários vem crescendo cada vez mais. “Muitos surdos, intérpretes, e até alguns oralizados estão aderindo à causa. Acho que levei uns dois meses [para aprender o idioma]. Convivência, não tem nada melhor do que isso. É o segredo que os cursos não fazem”, defende Aline.

Por Ana Raquel Périco Mangili

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