47 - O que é Otosclerose?

Otosclerose e Implante Coclear

“Por volta dos meus 16 anos, na década de 70, ao final do curso de 2º grau, deixei de entender os ditados do professor. Esse fato me deixou bem assustada, e minha perda auditiva vinha com zumbido também. A partir de então, visitei muitos médicos, todos sem me dar um diagnóstico preciso. Inclusive houve um otorrino que, olhando minha audiometria e mesmo afirmando que havia uma perda auditiva, disse que não acreditava que realmente eu a tivesse. Me orientou a procurar um psiquiatra, pois achava que meu problema era psiquiátrico. Do início das alterações até a constatação final, foram alguns anos, e por fim, o diagnóstico foi Otosclerose, problema herdado de minha mãe”.

Assim foi o longo caminho percorrido para se descobrir a causa da perda auditiva de Carminda Marçal, implantada em julho de 2005, na UNICAMP. A tecnologia da década de 70 para cá avançou bastante, de modo que atualmente o diagnóstico da Otosclerose tende a ser um pouco mais rápido e certeiro. Muito se descobriu sobre esta doença de origem genética, porém, grande parte de seus portadores não tem o conhecimento do que acontece dentro de seu sistema auditivo, que os leva a perder gradualmente a audição.

O que é a Otosclerose e quais são as opções de tratamento atuais

Basicamente, a Otosclerose é um distúrbio no metabolismo de flúor/cálcio no organismo, que leva à calcificação e ao crescimento anormal de um dos ossos que formam o ouvido médio, o Estribo. Em um corpo humano saudável, este ossículo das vias auditivas tem uma mobilidade natural, que é responsável por transmitir as vibrações sonoras para a cóclea, promovendo a audição. A fixação do Estribo dificulta e chega até mesmo a impedir a total transmissão dos sons para a orelha interna, levando a uma perda auditiva condutiva.

A Otosclerose afeta menos de 0,5% da população mundial, é predominante em mulheres, na maioria dos casos entre os 20 e os 50 anos, e apresenta relação com a síntese de hormônios femininos que estimula a progressão da enfermidade. Isso também explica o fato de que seus sintomas podem piorar durante a gravidez e a menopausa. De todas as pessoas que possuem o gene da Otosclerose, apenas 40% manifestam a doença, que, em cerca de 70% dos casos, atinge só um ouvido.

Quando apenas o Estribo é atingido pela calcificação, o paciente pode optar pela realização da cirurgia conhecida como Estapedectomia ou Estapedotomia, onde retira-se o ossículo calcificado e coloca-se uma prótese (de Teflon ou titânio) que permite a restauração e mobilidade desta parte do sistema auditivo. Mas este não é um procedimento 100% garantido. Em alguns casos, pode não haver restauração da audição e, mais raramente, pode acontecer uma piora do quadro clínico. Contudo, a chance de sucesso é alta.

No caso de Eliane Baixo Schmeil, as três cirurgias que fez para tentar restaurar o Estribo não deram certo, e devido à menopausa, a Otosclerose progrediu, atingindo a cóclea e levando-a a surdez profunda. Dessa forma, Eliane optou pelo Implante Coclear. “Comecei a notar minha deficiência auditiva com 17 anos. Após idas e vindas ao otorrinolaringologista, descobri que tinha Otosclerose, pois meu pai também tinha. Com 25 anos, fiz a primeira cirurgia, passei três dias ouvindo até demais, só que voltou tudo, todo o zumbido, toda a barulheira. Então refiz o procedimento porque o medico achava que era erro dele, mas mesmo assim, não deu mais certo. Com 26 anos, passei a usar AASI, e assim vivi por quase 30 anos. Em 2008, fiz a Estapectomia, a terceira cirurgia, especifica para Otosclerose. Fiquei pior, passei a usar dois AASI. Até que, a partir de maio deste ano, notei que já não estava conseguindo falar ao telefone, e com as pessoas só pessoalmente, pois assim faço leitura labial. Descobri então que a menopausa me fez perder o resto da audição. No dia oito de outubro fiz o Implante Coclear”, relata.

Para aqueles que optarem por não operar o Estribo, o uso de Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI) funciona muito bem na compensação de perdas auditivas condutivas. Antes de ocorrer a total calcificação do osso, detectada por exames audiométricos, timpanométricos e de imagem, pode-se tentar também, sob orientação médica, um tratamento à base de bifosfonatos e fluoreto de sódio, porém, os resultados de estabilização da doença são pouco positivos, e tais remédios acabam sendo mais eficientes no controle dos sintomas secundários da Otosclerose, como os zumbidos e as tonturas. Existem também pesquisas mostrando que o uso de flúor/cálcio antes da adolescência pode evitar ou minimizar os sintomas da doença.

A Otosclerose Coclear e o IC

Mas, quando a calcificação atinge a cóclea, causando um subtipo da doença, a Otosclerose Coclear, a cirurgia da Estapedectomia não se faz mais eficiente, pois agora a perda auditiva é de origem neurossensorial e costuma progredir rapidamente, levando à surdez profunda em poucos meses. Alguns estudos sugerem que a Otosclerose Coclear pode ser estabilizada através de tratamento com fluoreto de sódio oral durante períodos prolongados, o que nem sempre dá tempo de ser feito. Sendo assim, ao atingir a perda severa ou profunda da audição, o Implante Coclear passa a ser indicado para grande parte desses casos.

É o que aconteceu com Magda Zobra, conforme ela mesma nos conta. “Eu comecei a perder a audição em 2005, mas já tenho caso na família anterior a mim. Meu pai ficou surdo com 18 anos, mas nunca investigou o motivo. Eu, quando comecei a perder a audição, fui investigar, passei por vários médicos e nenhum chegava a uma conclusão, exceto que era genético. Só fui ter certeza da Otosclerose em 2013, quando o Dr. Koji, no Hospital das Clinicas, confirmou o diagnóstico. Eu iria então fazer o Implante no ouvido pior, que era o esquerdo, mas, no dia da cirurgia, o doutor resolveu fazer do lado direito, porque a minha perda foi muito rápida deste lado. Eu nem esperava tanto do IC, porque dizem para não ter muita expectativa com o resultado. Mas me surpreendeu, e muito”, afirma.

Para aumentar as chances de sucesso da inserção dos eletrodos do IC dentro da cóclea calcificada, já há modelos específicos de componentes internos de Implantes, como o Digisonic SP Multi-Array, da Neurelec, que, com dois porta-elétrodos curtos, pode ser inserido em dois pontos diferentes da cóclea calcificada devido à Otosclerose ou Meningite.

Foi uma surpresa, para Carminda Marçal (citada no começo dessa reportagem), quando ela descobriu que, apesar de suas cócleas já estarem calcificadas há bastante tempo, havia chances de receber com sucesso os eletrodos. “Ao final de uma avaliação médica com o Dr. Paulo Porto, ele me deu a resposta de que as cócleas estavam realmente péssimas, mas que era possível tentar o IC. Nesse dia, saí do consultório e chorei muito. Era de emoção, pois eu não acreditava nessa possibilidade para mim, considerando ainda que eu havia sido excluída em uma primeira avaliação médica, anos antes. Para minha felicidade, no dia da cirurgia, conseguiram passar todos os eletrodos. Eu entendo muitas coisas com o IC, mas há momentos em que também uso o apoio da leitura labial. Tudo depende da pessoa com quem converso, do ambiente em que me encontro, se há muito barulho ou não, muitas pessoas falando ao mesmo tempo. Costumo dizer que o Implante Coclear não é perfeito, não oferece audição perfeita para ninguém. Mas esse imperfeito, para quem não ouvia nada, é o perfeito!”, conclui.

Por fim, uma curiosidade: cientistas especulam que a causa da surdez que acometeu Ludwig van Beethoven, o grande compositor austríaco do século XVIII, tenha sido por Otosclerose. O músico foi perdendo gradativamente a audição a partir dos 26 anos de idade, e aos 46 (em 1816), já se encontrava praticamente surdo, além de sofrer pelo resto da vida com um zumbido insuportável.

 

* Fontes das imagens: Clinmedres.org (primeira foto) e arquivo pessoal da entrevistada (última foto).

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

Guia
Tech 4 Health
Vantagens

Faça sua doação

Contatos
Telefones:

(14) 3226-3388 (14) 3202-6091 (14) 3202-6092


Email:

Adap © 2019 - Todos os direitos reservados