61 - Como são os casos de Implante Coclear em adultos?

Implante Coclear e Surdez Pós-Lingual

Saiba mais sobre os fatores que contribuem para melhores resultados com o IC na idade adulta

* Matéria publicada originalmente em julho de 2014.

A perda da audição na idade adulta ou após a criança ter adquirido a linguagem oral é chamada de surdez pós-lingual. Atingido o grau de perda neurossensorial severo ou profundo bilateral, está previsto pelas diretrizes da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) que os pacientes pós-linguais tem o direito de se beneficiar de um Implante Coclear quando houver um resultado igual ou menor que 50% de reconhecimento de sentenças em formato aberto com uso de AASI em ambas as orelhas e uma correta motivação e conscientização sobre os resultados da cirurgia do IC.

Uma breve experiência com os Aparelhos de Amplificação Sonora Individual se faz necessária, mesmo que, em grande parte dos casos de surdez profunda, seu uso não traga quase nenhum ganho auditivo ao paciente, como foi o caso de Alexandra Souza Santos, implantada há quase dois anos. Ela perdeu a audição em 2011, e antes de fazer a cirurgia do Implante Coclear, tentou o uso do AASI. “Usei um aparelho antigo destes, mas pouco ouvia. Hoje, com o IC, entendo 80% de tudo nos diálogos longos, até 100% nos diálogos curtos e ouço no telefone uns 40%”, relata Alexandra (na foto ao lado, está ela e seu amigo Marcelo de Paula).

Causas da surdez pós-lingual

São variadas as causas de surdez após os primeiros anos de vida. Vão desde as perdas ocasionadas pela idade (presbiacusia) ou por origem genética de manifestação tardia, como por exemplo, a Síndrome de Usher e a Otosclerose, como também devido às sequelas dos seguintes acontecimentos fisiológicos: derrames, tumores, traumatismos cranianos, exposições contínuas a ruídos intensos, uso indiscriminado de remédios ototóxicos e doenças adquiridas, como meningite, sarampo e caxumba.

No último caso, temos como exemplo as histórias de Marcelo de Paula e Cindia Tomasi Panciera. Ambos perderam a audição por causa de caxumba contraída na infância, e optaram pelo IC somente na idade adulta. Marcelo possui três anos de implantado e relembra a época em que ocorreu sua perda auditiva. “Aconteceu quando eu tinha entre os oito e nove anos. Quem começou a perceber foi minha professora, que logo chamou meus pais para saber o que estava acontecendo comigo. Minha perda foi ao poucos, em alguns meses passou de uma audição normal para a perda profunda. Após perder a audição, tive que aprender a leitura labial e usar os AASI. Apesar disso, cresci como uma criança que ouvisse normalmente. Decidi que queria fazer o IC em 2010, quando eu não estava me adaptando a mais nenhum AASI e via o Implante como a única solução. E fiquei super satisfeito com os resultados, meu ganho com o IC foi muito acima do esperado”, conta.

Cindia, assim como Marcelo, também usou o AASI antes de optar pelo Implante Coclear. “Fiquei surda por causa da caxumba aos sete anos. A partir daí, comecei a ir atrás de adquirir o AASI, pois caso eu não usasse, poderia perder a fala. Consegui comprar apenas um na época, então usava-o uma semana em cada lado. Fiz fono, e com o AASI eu só ouvia barulhos e não conseguia saber o que era, então aprendi a leitura labial, o que me ajudou muito. A melhor coisa que me aconteceu na vida foi optar pelo IC. Hoje ouço muito bem, apesar de não entender algumas coisas e ainda usar a leitura labial. Não existe explicação para a sensação ótima de voltar a ouvir de novo, poder pegar o celular e ligar para alguém ou ouvir aquela música que você adora”, diz Cindia.

O sucesso do procedimento e da adaptação ao IC no caso da surdez pós-lingual varia de indivíduo para indivíduo, porém, há basicamente cinco fatores que podem interferir neste processo: a integridade física da cóclea e do sistema auditivo, o tempo de privação auditiva, a presença de audição residual e de estímulo ao nervo auditivo, a frequência à terapia fonoaudiológica e a experiência e tempo de uso do Implante Coclear.

Nos casos clínicos de ossificação da cóclea como consequência de patologias como a meningite, por exemplo, deve-se realizar a cirurgia do IC o quanto antes para evitar o total fechamento do sistema auditivo, o que impossibilitaria a inserção dos elétrodos (componente interno do Implante Coclear). Caso raro foi o de Élen Muzy, que teve meningite aos onze anos, e apesar da ossificação, sua cirurgia de Implante Coclear, ocorrida sete anos depois, foi um sucesso, como ela mesma relata. “Eu, na verdade, não tinha nem 1% de chance de fazer essa cirurgia, por causa da ossificação. Eu não tinha mais células vivas na cóclea para ouvir os sons. Na minha época era muito mais complicado fazer o IC, mas, apesar de tudo, no dia da cirurgia eu consegui ligar todos os eletrodos, foi 100%, até o médico ficou de boca aberta. Para eles, eu não conseguiria falar ao telefone, mas, antes de um ano após a cirurgia, eu já estava falando”, conta.

Fatores que auxiliam no sucesso do uso do Implante Coclear

O tempo de privação auditiva, a presença de audição residual e de estímulo ao nervo auditivo durante este período são fatores que interferem nos resultados após a cirurgia do IC. Via de regra, um tempo de surdez relativamente pequeno, aliado à presença de audição residual e a estimulação desta com o uso de AASI aumentam as chances de se obter ganhos significativos com o Implante Coclear.

A terapia fonoaudiológica é de importância fundamental para a adaptação ao IC pelo paciente pós-lingual. Comparada com a de uma criança pré-lingual, a reabilitação deste tende a ser mais rápida devido à presença de uma memória auditiva pré-surdez e ao fato da linguagem oral já estar estabelecida. Conforme o tempo de uso do Implante Coclear for aumentando, o processo auditivo tende a se tornar mais eficiente, natural e prazeroso.

Renata Orsi, implantada há apenas dois meses, nos conta um pouco sobre o seu processo de adaptação e redescobrimento dos sons com o Implante Coclear. “Como estou ativada há pouco tempo, posso dizer que estou ainda detectando muitos sons com o IC. Sei que a discriminação dos sons virá com o tempo e com muito treino. Por enquanto, só entendo as vozes com leitura labial, mas também sei que tenho muita terapia a fazer e reaprenderei a ouvir. Terei grandes surpresas ainda, estou bem positiva”, afirma Renata.

Porém, há casos em que se faz necessário o IC bilateral para que o paciente consiga obter uma boa discriminação auditiva da fala. Esta é a realidade de Lak Lobato, que perdeu a audição aos nove anos e teve o seu primeiro implante colocado vinte e dois anos depois. “Na primeira cirurgia que fiz, minha cóclea esquerda apresentava fibrose, o que impediu que todos os eletrodos do feixe fossem inseridos. No meu caso, isso representou distorções justamente nas frequências da fala. Ou seja, eu conseguia ouvir bem, mas não com clareza suficiente para discriminar o que era dito sem apoio da leitura labial. Meu grau de reconhecimento de fala em discurso aberto (onde não existe nenhuma pista visual) era próximo do zero”, relata.

Três anos depois da primeira cirurgia, Lak optou por implantar também o ouvido direito. “Para a minha felicidade, esta cóclea não apresentava nenhum problema estrutural e permitiu a perfeita inserção de todos os eletrodos. Graças a isso, consegui entender auditivamente a primeira palavra dez dias depois da ativação do implante e com poucas semanas de adaptação, minha discriminação auditiva da fala sem apoio da leitura labial passou de zero a 85%”, conclui Lak.

* Créditos das fotografias: arquivo pessoal dos entrevistados. 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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