O relato de Marineide, a quinta implantada brasileira pelo Centrinho de Bauru/SP

* Matéria originalmente publicada em agosto de 2014.

Nesta edição da Coluna ADAP, daremos voz à quinta implantada brasileira pelo Centrinho, Marineide Camilo Pereira, residente de Goiânia/GO, que preferiu ela mesma escrever sua própria história. Não deixe de conferir a seguir o seu emocionante relato!

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"Minha história de dor e superação – Por Marineide Camilo Pereira

Tudo começou quando eu tinha quinze anos. Durante minhas férias escolares, que deveria ser repleta de diversão e alegria, uma tragédia marcou para sempre a minha vida. Na tarde do dia 09 de janeiro de 1987, senti um mal estar e o meu estômago revirava. Eu estava passando minhas férias na fazenda onde os meus pais moravam, e minha mãe achou que fosse só uma má digestão e que logo passaria. Ninguém imaginava que eu estava sendo vítima de uma grave doença. Na madrugada do dia seguinte, acordei com uma forte dor de cabeça e meu corpo queimava numa febre altíssima.

Fui levada assim ao hospital mais próximo, no qual já cheguei em coma profundo. Acordei somente três dias depois e totalmente surda dos dois ouvidos, algo que eu jamais imaginei que pudesse acontecer. Os médicos explicaram aos meus pais que eu tinha perdido a audição em decorrência de uma Meningite Meningocócica tipo C e, por ter sido medicada com altas doses de antibióticos na tentativa de eliminar o vírus da meningite, eu tive o nervo auditivo dos dois ouvidos totalmente lesado e a cóclea ossificada, ficando dessa maneira condenada à surdez definitiva, pois na época não tinha Implante Coclear no país. A situação era tão absurda que eu não conseguia nem chorar.

Assim que recebi alta hospitalar, estava ainda meio sem entender o que havia acontecido para ter me deixado naquele estado tão frágil, pois junto com a audição eu tinha perdido também a minha coordenação motora, não conseguia parar em pé nem tampouco andar. A sensação que eu tinha era que a minha cabeça era muito maior e mais pesada que o meu próprio corpo. Diante de tudo aquilo, minha única preocupação era voltar a andar, para tentar dar um rumo à minha nova vida.

Os dias passavam tão devagar que mais parecia uma eternidade. Aos poucos fui me recuperando, tomava banho sentada numa cadeira e conseguia me vestir sozinha. Dois meses depois, senti uma felicidade inexplicável quando consegui andar sem ajuda da cadeira de rodas, e cada progresso era uma glória. Na mesma semana, meu pai marcou uma consulta médica com o otorrino mais conceituado de Goiânia, e fui toda esperançosa na expectativa de voltar de lá ouvindo. Até então meus pais ainda não tinham me revelado que o meu problema era irreversível, talvez por medo da minha reação ou porque eles próprios ainda não tinham aceitado o fato de eu estar condenada à surdez definitiva.

Durante a consulta, experimentei todas as marcas de Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI) sem obter nenhum sucesso, porque nenhum deles fez com que eu ouvisse nem a minha própria voz. Diante daquela dura realidade, eu chorei. A esperança acabou, o sonho de voltar a ouvir morreu e fiquei imersa numa dor profunda e paralisante, que mais parecia um estado de torpor. Passei a chorar todos os dias de saudades de ouvir, eu amava música e era fã do conjunto Roupa Nova, sucesso absoluto daquela época. Não conseguia me conformar com aquela nova vida.

Enfrentei muitos desafios no colégio e me fechei para o mundo, fiquei tímida e complexada, e muitas vezes perdi a alegria e a vontade de viver. Em casa, sofria com o modo como era tratada por meu pai e meus irmãos. Papai me enchia de presentes, e meus irmãos, de mimos, e aquilo fazia com o que eu me sentisse ainda mais inferior, inútil e infeliz. Minha mãe, Adália (foto), percebeu isso, e maravilhosa e forte como uma rocha, não permitiu que eles me tratassem de forma diferente nem que continuassem usando a escrita para se comunicarem comigo. Segundo ela, eu tinha perdido a audição, mas continuava inteligente e capaz de me virar sozinha.

Diante da postura de mamãe, me senti mais forte e com vontade de vencer, passei a me dedicar mais às sessões de fonoaudiologia e logo aprendi a fazer leitura labial, o que me ajudou muito, mas ainda a saudade e a vontade de ouvir só aumentavam. Aos poucos, fui voltando a sorrir, conseguia manter um sorriso no rosto, mas por dentro eu chorava e fui deixando de querer as coisas impossíveis e me contentando com as possíveis. Fui aprendendo a conviver com minhas limitações.

Três anos se passaram até o dia em que meu pai chegou em casa feliz da vida com um exemplar do jornal Folha de São Paulo, no qual tinha a maravilhosa reportagem: “Chega ao Brasil um implante inédito para curar a surdez!”. Naquela noite, foi uma festa lá em casa, e um mês depois, no dia 26 de setembro de 1990, eu passei pelo otorrino Orozimbo Alves Costa Filho, no CPA da USP de Bauru. Lá realizaram todos os exames de triagem, os quais indicaram que eu estava apta para fazer a cirurgia de Implante Coclear. Tive medos e receios, pois na época havia apenas dois pacientes implantados, a Jaqueline, de Niterói, e o José Vitor, de São Paulo.

Conversando com eles e sendo colocada a par pelos médicos de todos os riscos, não só da cirurgia realizada sob anestesia geral, mas também pela qualidade da audição pós implante, achei tudo muito arriscado. Os médicos queriam me operar, mas eu não quis. Porém, alguns meses depois, decidi aceitar. Fui a quinta implantada pelo Centrinho da USP e minha cirurgia foi realizada no dia 08 de agosto de 1991, e no dia 26 do mesmo mês a fonoaudióloga Dra. Maria Cecília Bevilacqua fez a ativação dos eletrodos. Foi um sucesso, recuperei minha audição e a alegria de viver.

Espero que a minha superação sirva de exemplo para outras pessoas. Não importa qual seja o seu problema, sempre haverá uma solução, basta saber esperar a hora e o momento certo, sem jamais perder a fé em Deus. Quando você se deparar com alguém com esse ou aquele problema, estenda-lhe a mão. Não critique, não julgue nem condene, é cruel demais. Não minta, diga sempre a verdade, pois a verdade dói mas liberta.

Agradeço o carinho e a dedicação que sempre recebi de toda a equipe do CPA, onde faço tratamento até hoje. Em especial à psicóloga Dra. Midori Otake Yamada, que jamais desistiu de mim, e com seu profissionalismo curou a minha alma, me fazendo enxergar novos horizontes e entender que o que aconteceu comigo foi uma fatalidade que pode acontecer com qualquer um, e que mesmo uma pessoa com deficiência pode amar, casar, ter filho e ser feliz. Palavra alguma jamais expressaria o carinho e a gratidão que tenho e sempre terei por ela. Agradeço também aos meus pais e irmãos, parentes e amigos, pelo imenso amor que sempre me deram. Ao meu filho Gabriel (foto), que está hoje com 16 anos e é o meu grande companheiro e meu amor maior. Ao meu namorado João (foto no começo do texto), que, com o seu jeito maravilhoso de ser, conquistou definitivamente o meu coração e me fez acreditar que o verdadeiro amor existe e que é muito bom amar e ser amada.

Marineide Camilo Pereira."

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