Conheça Jaqueline, a primeira implantada brasileira pelo Centrinho

* Matéria originalmente publicada em agosto de 2014.

Nesta edição especial da Coluna ADAP, apresentaremos a vocês a história de Jaqueline da Costa Castro Barreto. Secretária escolar e moradora de São Gonçalo/RJ, Jaqueline foi a primeira brasileira a receber um Implante Coclear, no Centrinho de Bauru, em 1990. É associada da ADAP desde a criação da entidade, em 1998. Super comunicativa e de bem com a vida, ela nos conta um pouco de sua trajetória pessoal, os desafios enfrentados e sua adaptação ao IC. Não deixe de conferir a matéria a seguir!

Em abril de 1989, a jovem Jaqueline estava com 18 anos quando contraiu meningite. “Comecei a apresentar febre e dor de garganta. Fui ao posto de saúde e o médico me disse que era apenas inflamação na garganta. Passou antibiótico e voltei para casa. Mas continuei passando mal. Daí é que começaram os vômitos e a dor de cabeça insuportável. Depois de dois dias, e várias idas e vindas ao pronto-socorro, foi que um médico mais experiente disse que poderia ser meningite”, relembra.

E então, em uma manhã deste período, Jaqueline acordou surda. “Meu irmão falava comigo e eu nada entendia. Mas passava tão mal que na hora não me importei tanto. Depois que fui internada no hospital São Sebastião, em Caju/RJ, e que comecei a melhorar, eu ainda achava que ia voltar a ouvir. Os médicos diziam que a surdez podia ser reação de algum medicamento”.

Foi aí que um “anjo”, como Jaqueline chama o Dr. Henrique Mercaldo Netto, apareceu em sua vida, a encaminhando para o Centrinho de Bauru/SP. “Ele me disse para escrever uma carta para a Dra. Maria Cecilia Bevilacqua, contando o drama que eu estava vivendo. Escrevi a carta, e em dezembro de 1989, recebi um chamado de Bauru, para comparecer em março do ano seguinte para avaliação. Eu achava que esse tipo de cirurgia já era realizada há muito tempo. Mas, quando cheguei lá e soube que seria a primeira, não senti nenhum tipo de receio. A equipe passou muita credibilidade, e em momento algum eles me prometeram uma audição normal. Sempre me explicaram que poderia ser apenas próxima à normal”, relata.

Todo o processo aconteceu de forma muito rápida. Jaqueline ficou vários dias em Bauru para realizar todos os exames e, em 17 de maio de 1990, ocorreu a sua cirurgia. “Foi emoção à flor da pele. Era o momento em que estávamos realmente começando a realizar um sonho. Mesmo com todos os riscos, quem passa por isso sempre tem aquela esperança, aquela de que dali em diante tudo vai mudar e, com certeza, melhorar. A cirurgia durou aproximadamente oito horas, e foram implantados 18 eletrodos. Como era a primeira, os médicos tiveram surpresas também, como por exemplo, a ossificação da cóclea. Mas eles já contavam com a possibilidade de imprevistos e avisaram que seria mais ou menos esse tempo mesmo”.

A recuperação da cirurgia também foi um pouco mais demorada, e a ativação dos eletrodos ocorreu em agosto do mesmo ano. “Lembro-me de estar no CPA, com a Dra. Maria Cecília, e ela colocou a parte externa do aparelho, mas não falou nada que ia ligá-lo. Aí ligou e eu ouvi uns ruídos horríveis, uns ‘pi, pi, pi’, totalmente indecifráveis, mas que já eram os eletrodos ativados. Depois começamos os mapeamentos, parte muito cansativa, porém fundamental. Na época, Dra. Cecília também estava aprendendo as técnicas de mapeamento, e foi preciso vir uma pessoa dos Estados Unidos para ajudar, era uma doutora chamada Judith. Esse período foi uma parte muito cansativa e, por que não dizer, desencorajadora, pois a gente sempre espera que no final vai ser tudo perfeito, que vamos ligar o implante e ouvir perfeitamente, mesmo estando ciente de que não seria assim”, recorda Jaqueline.

Com o passar do tempo e os sucessivos mapeamentos, sua nova experiência auditiva foi se tornando cada vez mais prazerosa. “Não era perfeito, mas era muito próximo da perfeição. Com o tempo, a audição melhora muito, pois nosso cérebro se adapta e reaprende a ouvir. Inclusive, eu já cheguei até a entender conversas ao telefone quase que perfeitamente, mas ainda dependo bastante da leitura labial. Com a televisão, a gente se acostuma com o Closed Caption, mas sempre dá para entender uma coisinha ou outra, às vezes uma frase inteira, outras vezes umas poucas palavras. Ruídos de fundo atrapalham muito também”, explica.

O sucesso da cirurgia de Jaqueline, como sendo a primeira feita no Brasil, foi fundamental para a exploração dessa nova técnica no país, permitindo recuperar a audição de milhares de pessoas com o passar do tempo. Antes de decidirem se submeter a esse procedimento, muitos acompanharam o caso da primeira implantada de perto, como o carioca Alberto Leal de Medeiro, entrevistado na última edição da Coluna ADAP. Foi graças ao contato com Jaqueline, na época, que o também jovem Alberto optou pelo Implante Coclear.

Com o seu primeiro IC, Jaqueline passou 23 anos ininterruptos desfrutando de seu sentido auditivo. Apenas em 2013 é que o componente interno do Implante começou a apresentar problemas. “O IC começou a me incomodar, me dando uns choquinhos. Daí os médicos desligaram vários eletrodos e fiquei com apenas quatro no final. Por causa disso, minha audição decaiu muito, e eles resolveram retirar o antigo implante e colocar um novo. A nova cirurgia ocorreu no dia 27 de junho de 2014, e ativarei agora no dia 04 de agosto. E me parece que foi também a primeira vez que trocam uma marca por outra. O IC antigo era de uma dimensão maior e, ao ser retirado, a cóclea ficou um pouco avariada, daí a troca por outro, que tem tamanho menor e irá aproveitar a parte boa da cóclea”, conta.

Jaqueline também relata sobre algumas dificuldades profissionais que a surdez lhe ocasionou e a maneira exemplar de como lida com elas. “Eu perdi muitas oportunidades quando era mais nova e estava à procura de emprego, sempre ouvia a desculpa de que precisavam de alguém para atender ao telefone. Trabalhei de faturista numa firma, depois fui trabalhar de operadora de caixa em um mercado, até que fiz concurso para assistente administrativo na prefeitura do meu município. Quando fui tomar posse, me mandaram para a secretaria de uma escola. Depois, resolvi fazer curso de especialização em secretaria escolar e fui promovida a secretária escolar onde trabalho. Sou a pessoa responsável pelo funcionamento da secretaria e suas atribuições. Atendo o público, os professores e outros funcionários. Eu nunca fui de me esconder. Sempre enfrentei as situações e, se eu não entender o que falaram, peço para repetir, escrever ou falar com outra pessoa. Enfim, enfrento mesmo, pois que nos falta em um sentido, nos sobra em determinação e fé”, finaliza.

Por Ana Raquel Périco Mangili.

Guia
Tech 4 Health
Vantagens

Faça sua doação

Contatos
Telefones:

(14) 3226-3388 (14) 3202-6091 (14) 3202-6092


Email:

Adap © 2018 - Todos os direitos reservados