70 - O que é a adaptação bimodal?

De uns tempos para cá, ampliou-se a divulgação dos benefícios do Implante Coclear (IC) para pessoas com perdas auditivas de grau severo a profundo bilateral. Inclusive, casos de cirurgias bilaterais, simultâneas ou não, estão ocorrendo com mais frequência do que antes. Mas, seguindo a máxima do “cada caso é um caso”, você sabia que também é possível, para algumas pessoas, ter uma audição bem satisfatória utilizando um Implante Coclear de um lado, e um Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) do outro?

Tais situações recebem o nome de adaptação bimodal, como explica o Dr. Luciano Moreira, médico do Hospital São Vicente de Paulo e chefe da Equipe Sonora. “O termo bimodal é usado na reabilitação auditiva para designar o uso simultâneo de duas modalidades de estimulação auditiva distintas: a acústica (amplificação dos sons via AASI) e a elétrica (via implantes cocleares). Isto é possível de duas formas. A mais comum é usando AASI de um lado e IC do outro, e a segunda é fazendo uso de um aparelho híbrido (que funciona como IC e como AASI na mesma orelha)”.

Sobre o Implante Coclear Híbrido, a ADAP já possui uma matéria a respeito deste assunto (veja aqui). Mas, falando sobre o uso simultâneo de IC e AASI em ouvidos diferentes, os casos que recebem esta indicação, ao invés da do IC bilateral, são aqueles nos quais o paciente ainda tem benefícios com o AASI em um dos ouvidos. Tatiana Mendes, fonoaudióloga representante da Advanced Bionics no Brasil, diz que a percepção da fala humana com o uso do AASI é o principal critério utilizado nas indicações à adaptação bimodal.

“Em linhas gerais, a indicação do Implante Coclear ocorreria, no que diz respeito aos testes de percepção da fala, com resultado igual ou menor que 60% de reconhecimento de sentenças em conjunto aberto com uso de AASI na melhor orelha e igual ou menor que 50% na orelha a ser implantada, com percepção de fala diferente de zero em apresentação em conjunto fechado. Então, o paciente poderia ter a indicação do IC em uma orelha e não ter indicação na outra (por exemplo, um lado com perda profunda, com resultado de percepção da fala de 0% e, no outro lado, perda severa, com percepção de fala de 70%)”.

Benefícios e desafios da adaptação bimodal

A utilização simultânea de IC mais o AASI, quando existe esta possibilidade, traz benefícios ao implantado, comparada à situação de uso de apenas um IC, como relata o Dr. Luciano. “Quando a adaptação bimodal é possível, seu benefício vem da vantagem que cada um - IC e AASI - tem sobre o outro. Para pacientes que conseguem percepção auditiva com AASI, ele costuma ser superior ao implante na discriminação fina das frequências e acesso aos sons graves. Isso traria vantagens, por exemplo, para ouvir música. Já o IC costuma fornecer ao paciente acesso aos sons agudos, que costumam ser os mais deficientes nos quadros mais avançados de surdez. Isso se traduz em melhor compreensão da fala. Assim, a bimodalidade seria uma forma de somar vantagens de AASI e IC”.

Mesmo assim, muitos pacientes acabam deixando o AASI de lado após passarem pela cirurgia do IC. “Diversos estudos mostram que, apesar dos benefícios da audição binaural, muitos usuários de IC abandonam o uso do aparelho auditivo na orelha não implantada por referirem não sentir benefícios auditivos e considerarem que o uso do AASI interfere na qualidade do IC. Estudo apontou que, em média, apenas 30% dos usuários mantém o uso bimodal após o IC. As possíveis razões para este fato seriam a falta de integração entre o AASI e o IC, ajustados de forma independente, sem conhecimento dos ajustes um do outro”, aponta a fonoaudióloga Tatiana, que utilizou como base algumas pesquisas feitas na área, cujas referências podem ser encontradas ao final desta matéria.

A importância da boa adaptação e do treinamento auditivo

Como pode-se, então, ajudar o usuário de IC, que tenha indicação ao AASI na orelha contralateral, a ter uma boa adaptação bimodal após o implante? É aí que está a importância de um bom acompanhamento fonoaudiológico para ajustes nos aparelhos e a persistência no treinamento auditivo. Segundo a fonoaudióloga Marcia Cavadas, professora do curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da UFRJ e doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela UNIFESP, existem algumas particularidades na adaptação bimodal.

“Os pacientes usuários de IC devem utilizar aparelho auditivo antes de realizar a cirurgia. Na maioria dos casos, assim que ocorre a ativação do implante, a orientação é não usar o AASI de imediato, para que o cérebro seja estimulado pelo implante. Pois, nesse momento, a prioridade é o IC. Esse tempo sem usar o AASI não é fixo e igual para todos os pacientes. Cada um tem uma necessidade e uma forma diferente de lidar com esse processo. Alguns pacientes são tão bem adaptados ao AASI que não conseguem ficar sem usar. Então, nesses casos, orientamos que use o AASI com o IC nos momentos mais importantes de comunicação, como trabalho e escola, e deixe o tempo de ficar em casa com o uso apenas do IC. Em relação à terapia, a orientação que damos é que mais uma vez o IC seja estimulado prioritariamente. Mas, no processo da terapia fonoaudiológica, é importante realizar a estimulação por orelha e também na condição bimodal. O ideal é que o paciente tenha conforto e um ótimo aproveitamento da adaptação”, detalha a profissional.

Outra opção que pode facilitar a adaptação bimodal é quando existem marcas de AASI e IC que permitem a comunicação entre os dois tipos de dispositivos através de compatibilidade das tecnologias. Neste sentido, a Advanced Bionics já conta com o AASI Naída Link, feito para atuar em conjunto com o modelo de IC mais recente da marca e, segundo o Dr. Luciano, está previsto o lançamento de tecnologias bimodais de algumas outras marcas de IC nos próximos meses, mas tais empresas não responderam os pedidos de entrevistas feitos pela ADAP até o fechamento desta reportagem.

E se a surdez evoluir no lado não implantado?

Uma dúvida bastante comum entre os usuários de IC que possuem indicação à adaptação bimodal é quanto à possível evolução da deficiência auditiva no ouvido não implantado, o que poderia tornar mais indicado, com o passar do tempo, que se fizesse o IC bilateral ao invés da adaptação bimodal. Novamente, aqui também se encaixa a máxima do “cada caso é um caso” e, para ilustrar isto, a ADAP entrevistou duas usuárias de IC que possuem a mesma causa de surdez (aqueduto vestibular alargado bilateralmente) desde a infância, e que implantaram inicialmente apenas um ouvido, em 2013, e continuaram utilizando um AASI no outro lado.

Para Melissa Peres, estudante de 17 anos e moradora de Piracicaba/SP, sua deficiência auditiva evoluiu rapidamente em ambos os ouvidos. Ela continuou usando o AASI no lado não implantado, até que este parou de lhe trazer benefícios devido ao avanço da surdez. Então, em janeiro de 2018, Melissa optou pelo IC bilateral. “Com um AASI e um IC, os sons eram muito diferentes em cada ouvido. Mas agora não, tipo, apesar de eu ainda estar no começo do treinamento do segundo IC, em ambiente silencioso já consigo fazer uma conversa sem olhar para a pessoa. É fantástico! Eu sentia falta da audição bilateral”, diz.

Mas para Alessandra Carolina Drumond, natural de Ilha Solteira/SP e autora do blog O Milagre da Audição, sua deficiência auditiva evoluiu de forma diferente em cada ouvido, e ela é usuária de um AASI até hoje. “Em meio a expectativas e esperanças, a adaptação foi difícil quando eu utilizava somente o IC. Para compreender o som com o ‘ouvido novo’, eu dependia do ‘ouvido antigo’. Usando o AASI junto com o IC, foi mais fácil haver a fusão dos dois sons. Para isso, levou um bom tempo de adaptação relativo ao esforço e uso diário. Para treinar usando somente o IC, comecei fazendo leitura em vídeo com legenda e também ouvindo e lendo letras de músicas. Usei muito aplicativos no celular para reabilitação auditiva, como o Rehabilitation Game (da Oticon Medical), Lexico Sounds e Sons de Animais. No computador, praticava com uma amiga o Angel Sound. No primeiro ano, ficava só com o IC por um período diário. Depois, comecei a fazer fonoterapia e lá treinava o IC desligando o AASI, com exercícios de discriminação de palavras e sons. Em casa, treinava pelo computador através do site Afinando o Cérebro, até ter alta”, conta.

Alessandra não pensa em fazer o IC bilateral, pois a perda auditiva no ouvido não implantado estabilizou-se no grau severo e ela tem bom aproveitamento da adaptação bimodal. “No começo, eu não apreciava, era super desconfortável, mas, apesar de serem bem diferentes um do outro, em se falando de tecnologia, eu procurava não me incomodar com o som do IC, pois já esperava que não seria igual ao que eu estava acostumada a ouvir com o AASI. O que eu não conseguia era ficar somente com o IC. O som é muito melhor com os dois juntos, simplesmente porque um complementa o outro. Sinto falta se a bateria de um deles acabar e se precisar ficar por um momento só com um ligado, pois, no meu caso, o AASI deixa a audição mais confortável e fica bem melhor a discriminação da fala, e o IC, por sua vez, me dá os sons mais baixos. Por isso, mesmo o AASI sendo mais ‘fraco’ que o IC, o resultado final de ambos acaba sendo melhor para mim do que só com um ou com o outro”, finaliza.

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Referências das pesquisas utilizadas pela fonoaudióloga Tatiana Mendes:

Devocht E., George E, Janssen A., Stokroos R. 2015. Bimodal hearing aid retention after unilateral cochlear implantation. Audiology & Neurotology. Feb;20:383-393.

Yoon YS, Shin YR, Gho JS, Fu QJ. 2014. Bimodal benefit depends on the performance difference between a cochlear implant and a hearing aid. Cochlear Implants Int. Oct 20.

Scherf FW, Arnold LP. 2014. Exploring the clinical approach to the bimodal fitting of hearing aids and cochlear implants: results of an international survey. Acta Otolaryngol. Nov;134(11):1151-1157.

Siburt HW, Holmes AE. 2015. Bimodal Fitting: A survey of current clinical practice. Am J Audiol. Apr 22.

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* Créditos das imagens: arquivo pessoal dos entrevistados.

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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