71 - Como são os casos de Implante Coclear bilateral de marcas diferentes?

* Republicação de matéria produzida em outubro de 2015.

Um assunto pouco comentado no Brasil, e até no mundo, sobre o tema do Implante Coclear (IC) é a opção de se fazer o IC bilateral com aparelhos de marcas diferentes em cada ouvido. Sabe-se que todas as marcas de IC são capazes de proporcionar uma ótima qualidade auditiva aos seus usuários – caso contrário, não seriam aprovadas para comercialização nos mercados de vários países. Então, que fatores podem estar envolvidos nos casos de escolha médica, ou do próprio usuário, por uma marca diferente para o segundo implante?

A título de curiosidade, a ADAP ouviu a opinião de vários especialistas brasileiros na área do Implante Coclear para esclarecer essa questão. Estudos científicos sobre o assunto são escassos, assim como o número de usuários de marcas diferentes no Brasil. Nosso objetivo com essa matéria não é comparar o desempenho auditivo com as diversas marcas de IC, porque cada caso é um caso, o que torna as experiências subjetivas e variantes de usuário para usuário. Além disso, um estudo canadense demonstrou que não há diferenças significativas no desempenho auditivo entre pacientes que utilizam a mesma marca de IC ou não. Então, o que buscamos aqui é desvendar os motivos e as opiniões médicas que levam à opção por marcas diferentes a serem implantadas em um mesmo usuário.

O consenso é de que esses casos são raros, já que a maioria dos usuários é orientada a fazer o segundo implante com a mesma marca do primeiro, conforme explica o Dr. Rogério Hamerschmidt, chefe do Serviço de Implante Coclear do Hospital de Clinicas da UFPR. “Apesar de ser possível sim, nós evitamos implantar marcas diferentes no mesmo paciente, pois traz dificuldades para o próprio paciente, que já está acostumado em mexer, carregar e programar uma marca, e daí vai ter que aprender tudo de novo para o implante do outro ouvido, além da dificuldade para a fonoaudióloga, que usa um software de mapeamento para um lado e outro para o outro lado”.

Esse é o principal argumento em relação às possíveis dificuldades ao usar um segundo implante com marca diferente do primeiro. As fonoaudiólogas Gisele Aquino (Audium) e Bárbara Rosa (professora da Universidade Federal de Sergipe) também são da mesma opinião do Dr. Rogério. Já o Dr. Luciano Moreira, médico do Hospital São Vicente de Paulo e chefe da Equipe Sonora, e o Dr. Paulo Porto, apontam outro possível obstáculo para os usuários de IC de duas marcas, ao explicarem que cada implante trabalha em velocidade distinta e usa algoritmos diferentes.

A fonoaudióloga Sandra Giorgi Sant'Anna complementa: “Acho a adaptação com duas marcas possível, mas difícil. Outros fatores, como a idade do primeiro implante, o tempo do intervalo para o segundo implante e as diferenças específicas de cada estimulação terão um papel muito importante. As duas orelhas poderão responder bem, mas com velocidades diferentes e funcionamento de microfones diferentes”. Ela ainda destaca que um bom resultado com o IC bilateral, independentemente se for da mesma marca ou não, depende muito do intervalo de tempo entre uma implantação e outra. Quanto maior esse intervalo, mais difícil tende a ser a adaptação binaural (integração auditiva entre os dois ouvidos).

Dr. Luciano também esclarece quais são as indicações específicas que podem exigir que o médico opte por outra marca para o segundo implante do paciente. “Podem existir casos especiais, quando, por exemplo, se precisa fazer um segundo implante em quem já tem um e, para esse segundo ouvido, seja necessário um tipo de eletrodo que não se dispõe na marca do primeiro implante”. Dr. Rogério também enumera outro motivo, de ordem burocrática, para que o usuário receba duas marcas de IC. “Se o paciente, por acaso, fizer uma marca pelo SUS e for fazer o outro ouvido pelo convênio, pode acontecer do convênio médico não aceitar liberar a mesma marca do primeiro lado”.

A experiência de usuários de IC de marcas diferentes

O caso do implantado Vinícius Bispo, de 19 anos, é parecido com a situação mencionada acima pelo Dr. Rogério. Vinícius tem surdez pré-lingual e teve seu primeiro ouvido implantado quando ainda era criança. Em 2011, com 15 anos, optou pelo bilateral, porém, a marca de seu primeiro IC não deu suporte para que o plano de saúde custeasse o segundo implante. Sendo assim, seu médico lhe sugeriu um IC de outra marca para a nova cirurgia.

“A operação ocorreu bem, a ativação aconteceu um mês depois, passei ao longo de dois anos em adaptação (somente estímulos auditivos). Hoje em dia, com os dois aparelhos, ouço os sons de forma enriquecida e com precisão, tenho facilidade em localizar os sons e consigo assistir filmes dublados sem dificuldades. Ainda não discrimino as palavras por completo e não consigo identificar o som se estiver só com o segundo IC, mas o motivo disso seria não ter usado AASI naquele ouvido, fazendo com que agora eu tenha correr contra o tempo, pois ele ficou 15 anos “dormindo”. Mas tenho fé que ainda terei o resultado a qual espero”, conta.

Renata Orsi, implantada brasileira unilateral que atualmente mora nos EUA, relata que fez contato com alguns usuários americanos de IC de marcas diferentes através de um fórum on-line, e descobriu mais um motivo que pode levar o paciente a escolher outra marca para o segundo implante. “A maioria dessas pessoas são implantadas há anos no primeiro ouvido, e ao fazerem o bilateral em outro centro, tem que pegar o que tem lá disponível, ou, então, por opção mesmo, fazem o segundo IC na marca que querem, já visando uma troca do componente interno do IC do primeiro ouvido”, explica. Também houve relatos de usuários que dizem preferir o reconhecimento auditivo da fala com uma marca de IC, e a apreciação da música com outra, mas enfim, essas são percepções subjetivas e que podem variar de paciente para paciente.

 

* Créditos das fotos: National Institutes of Health, part of the United States Department of Health and Human Services (primeira imagem) e arquivo pessoal do entrevistado (segunda imagem).

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.

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