Cantora Luiza Caspary lança álbum acessível para pessoas com deficiência auditiva

A cantora, compositora e atriz Luiza Caspary, de São Paulo, lançou, em outubro deste ano, o primeiro single (Sinais) do seu novo disco Mergulho, que tem como objetivo ser acessível para pessoas com deficiência auditiva.

Para isto, Luiza disponibiliza nos videoclipes os recursos da leitura labial, das legendas descritivas com as letras das músicas e das interpretações em LIBRAS das canções. A cantora é a primeira do Brasil a tornar seu trabalho acessível para pessoas com deficiência, já tendo utilizado também o recurso da audiodescrição em suas produções musicais.

Diante desta grande novidade, a equipe ADAP solicitou uma entrevista exclusiva com Luiza, que lançará nova música do seu álbum no dia 23/11. Confira a seguir o nosso bate-papo com a cantora.

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ADAP: Luiza, poderia nos contar um pouco da sua história com a música e também de suas influências e inspirações nesta área?

Luiza Caspary: Nasci com vontade de cantar e fui apoiada e incentivada pela família, composta por uma mãe artista, repleta de tios instrumentistas e tias afinadas, uma avó coruja e uma irmã e prima parceiras de coro.

Estudei canto erudito e fiz parte do coro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre dos 10 aos 13 anos, depois, passei pela fase de estudar melismas de Soul e Black Music e, por fim, descobri a simplicidade e ao mesmo tempo a genialidade da música brasileira, ouvindo Pixinguinha, João Gilberto, Tom Jobim, Marisa Monte ...

Depois da minha estréia aos oito anos como Carmem Miranda, nunca mais abandonei o palco e o estúdio. Trabalho como cantora e compositora com meu trabalho autoral, tenho um projeto de versões Pop in Jazz chamado New Chic, faço locuções e jingles publicitários, dublo e faço voz original para animação, e também localizo games.

ADAP: E em relação à acessibilidade, a partir de que momento de sua carreira você começou a pensar em produzir músicas e shows com estes recursos? Houve algum acontecimento ou motivo em específico? E como foram as suas primeiras experiências neste sentido?

Luiza Caspary: Passei a pensar sobre isso em 2011, após minha mãe, Marcia Caspary, concluir um curso de Audiodescrição. Ela e seus colegas de curso formaram um grupo de estudos e me perguntaram se eu topava disponibilizar um videoclipe meu para eles desenvolverem um roteiro e fazerem a gravação. Eu, obviamente, topei. Apesar de totalmente despretensioso, esse material foi pioneiro como primeiro videoclipe com Audiodescrição do Brasil e até hoje é usado como referência, além de ter sido a primeira porta que abri na área e que me fez enxergar esse universo paralelo do público com deficiência. Sendo assim, trabalhando com o público cego, me veio a necessidade de pesquisar como eu poderia fazer para incluir a comunidade surda e me aproximar dela.

Dos clipes, veio a necessidade de levar isso pro palco. A principal dificuldade é a falta de estrutura dos locais para receber e atender a demanda do público. Na maioria das vezes, salvo raras exceções, o investimento em acessibilidade é por minha conta: abro mão do meu cachê para pagar a intérprete de LIBRAS e a Audiodescrição.

ADAP: Um aspecto que nos chamou a atenção em seu canal do Youtube é que há vídeos onde você explica sobre a diversidade da deficiência auditiva e das formas de acessibilidade para este público (através da legendagem e leitura labial para os surdos oralizados e da LIBRAS para os que têm esse idioma como língua materna). Inclusive te parabenizamos pela iniciativa de levar tal conhecimento às pessoas, pois, infelizmente, a temática da deficiência auditiva ainda é cercada de mitos e generalizações. Então, gostaríamos de te perguntar como você tomou conhecimento da diversidade existente neste tipo de deficiência e suas diferentes formas de acessibilidade para cada caso?

Luiza Caspary: Muito legal vocês perguntarem isso! Na verdade, quem me alertou para isso foi a Renata Lé, que ia assistir aos meus shows com intérprete de LIBRAS e um dia me chamou para conversar, sugerindo que eu tentasse inserir legendas, pois ela havia colocado um Implante Coclear e gostava de ouvir e aprender a música com a legenda, para ajudar no aprendizado da gramática, e então me explicou sobre as diferenças de surdez. Nunca esqueci isso, e hoje a Renata trabalha comigo como consultora da equipe de LIBRAS.

ADAP: E como se deu o seu aprendizado da LIBRAS? Houve alguma identificação ou dificuldades neste processo? E que dicas você daria para outras pessoas que também desejam aprender esse idioma?

Luiza Caspary: Preciso estudar muito ainda para ser fluente. Sei o básico que aprendi, pois acredito no poder da comunicação. Eu acho a LIBRAS muito lógica e interessante. Muitas vezes eu entendo tudo o que está sendo manifestado e, na hora de responder, me falta "vocabulário", mas eu ainda chego lá! Todos deveriam estudar, afinal, é a segunda língua do nosso país e há milhões de pessoas surdas para a gente compartilhar a vida com elas.

(Na foto ao lado, Luiza está com a intérprete de LIBRAS Naiane Olah).

ADAP: Você comentou que sua mãe atua como audiodescritora. Como se deu esse interesse dela por esta área? E você, atua como audiodescritora também? Que tipos de conhecimentos são necessários para exercer esta função?

Luiza Caspary: Como citei acima, minha mãe conheceu a Audiodescrição e concluiu o curso em 2010. Ela começou no teatro, foi radialista, locutora publicitária, até conhecer esse recurso pelo qual se apaixonou. Somos sócias em uma empresa que presta serviços de acessibilidade para diversos artistas, eventos e clientes.

Minha mãe é que toca essa parte de atendimento, formação de equipe, roteiro e narração. Eu capto alguns clientes em São Paulo e apenas encaminho para ela prosseguir. Faço muitas coisas, como citei antes, e uma delas é esse foco em acessibilizar todo meu conteúdo, então concentro a acessibilidade no meu próprio trabalho e carreira.

ADAP: Seu site oficial também conta com recursos de acessibilidade. Como se deu a construção dele?

Luiza Caspary: Isso foi um grande processo de descoberta comigo junto à Cláudia, do Acesso para Todos, e sua equipe de revisores. Eu fiz uma boa busca de referências de cor, disposição, recursos, etc, e juntas vimos como tornar isso possível e bonito, sem parecer site institucional. Fomos premiadas em 2016 pela W3C e indicadas ao 1º Prêmio SIM SP.

ADAP: Agora, poderia nos contar um pouco sobre o seu próximo álbum, Mergulho? Quantas músicas ele terá? Quando elas serão lançadas? E todas elas terão todos os recursos de acessibilidade (legendagem, leitura labial, LIBRAS e audiodescrição)?

Luiza Caspary: Mergulho já começou a ser lançado em outubro, a partir da música Sinais, e a próxima faixa, que se chama “Já Não Somos Apenas Nós Dois” no sai dia 23/11, e assim sucessivamente até colocarmos as nove faixas no mundo! Todas elas contarão com Vídeo LIBRAS, com leitura labial e legendas, mas não utilizei a Audiodescrição nesses vídeos, pois o foco é o entendimento da letra da música, que através do áudio da canção, já é absorvida pelas pessoas com deficiência visual. De qualquer forma, sempre na descrição do vídeo por escrito eu falo sobre o cenário e outros detalhes. O material de Making Of e Videoclipes ganharão o recurso da Audiodescrição também :)

ADAP: Como surgiu a ideia de criar um álbum totalmente acessível? Além da presença dos recursos de acessibilidade, você teve que pensar em algum tipo de modificação nas músicas ou nos videoclipes para torná-los mais acessíveis? Se sim, quais foram estas modificações?

Luiza Caspary: Eu penso nisso há muito tempo, por conta dos famosos Video Lyrics, e imaginei como seria legal um Vídeo LIBRAS com todo o combo junto. Matutei muito numa forma de ter um material PARA TODOS, sem deixar de ser artístico. As músicas não sofreram alterações por conta disso, mas os vídeos sim... Por exemplo, a escolha de filmar com câmera fixa e parada foi para não perder nenhum momento dos meus lábios,  expressões e gestos em LIBRAS. Qualquer corte de câmera interferiria nisso, então optamos por um plano aberto mais simples, porém, cumprindo o papel da acessibilidade de fato.

ADAP: Falando agora sobre a primeira música do álbum que já foi lançada (Sinais), como foi a sua produção? E que tipo de mensagem você espera transmitir ao seu público?

Luiza Caspary: Eu não escolhi Sinais como primeira música à toa. Ela é a canção que mais representa esse meu mergulho em mim mesma. Sinto uma identificação geral de todos, e acho isso lindo! Foi um disco gravado em um ano e meio, esculpido com carinho para a entrega do áudio final representar de fato o que a canção quer dizer. A mensagem que quero transmitir à todas as pessoas que cruzam por mim ou por minha arte é: antes de iniciar qualquer projeto, conecte-se com um propósito maior, lembre-se do propósito DA vida, pois seu propósito DE vida pode ser pequeno diante disso.

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Entrevista feita por Ana Raquel Périco Mangili.
Fotos: Rodolfo Magalhães/arquivo pessoal de Luiza Caspary.

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