74 - Terminologias da deficiência auditiva e da surdez

Deficiente auditivo ou surdo? Surdo se escreve com letra maiúscula? Por que é errado falar surdo-mudo? Estas e outras são algumas das principais dúvidas relativas às terminologias da área da deficiência auditiva no Brasil. Muitas pessoas têm até receios de conversar sobre isso, por medo de, sem querer, ofenderem alguém por falta de conhecimento em saber quais palavras são mais aceitas socialmente neste universo.

É natural que, se o indivíduo tem pouco contato com pessoas com deficiência, ou se esta realidade não faz parte do seu cotidiano, ele se sinta desnorteado ou com dúvidas sobre o tema em questão. E é por isso que é tão importante termos espaços para debater e difundir os conhecimentos acerca das deficiências para a sociedade.

Esclarecendo as dúvidas

De forma geral, a expressão “pessoa com deficiência”, que é recomendada pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem grande aceitação entre comunidades de indivíduos com os mais variados tipos de deficiência, pois esta expressão denota exatamente o sentido da deficiência de ser apenas uma característica do indivíduo, e não algo que o define em sua totalidade. O termo “pessoa” sempre deve vir em primeiro lugar. Seguindo a mesma lógica, a palavra “deficiente” hoje é mais aceita como adjetivo, e não como substantivo (por exemplo, “as pessoas deficientes auditivas”, no lugar de “os deficientes auditivos”).

Porém, sempre houve um embate entre os termos deficiente auditivo e Surdo/surdo. O professor de Português/LIBRAS do Instituto Federal de São Paulo (campus Itaquaquecetuba), Luis Mateus da Silva Souza, morador de Bauru e participante da Associação dos Surdos de Bauru e Região - ASBA, explica que os termos Surdo/surdo estão relacionados com a comunidade da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e com a noção de identidade Surda.

“’Surdo’ com letra maiúscula é usado para marcar que esse sujeito é diferente, e não deficiente, que faz parte de uma comunidade com uma língua e cultura própria, ou seja, é minoria linguística. Já a palavra ‘surdo’ com letra minúscula normalmente apresenta a condição patológica, a ausência de algo, o déficit auditivo, assim como o termo deficiência. Existe um embate entre a visão clínica-patológica e a visão socioantropológica da Surdez. A visão clínica pensa em ‘consertar’ o surdo, resolver o problema auditivo. Já a visão socioantropológica compreende que não é a Surdez que prejudica o Surdo, mas sim a sociedade excludente, que não oferece as condições necessárias para que o indivíduo se desenvolva. O Surdo precisa ser respeitado em suas diferenças e necessidades, pois tem o direito de ser Surdo. Segundo o Decreto nº. 5.626/2005: ‘considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS’”, diz o professor.

Então, como se pode perceber, há duas maneiras de se analisar os conceitos de deficiência auditiva e de surdez. A ADAP entrevistou também o Dr. Luciano Moreira, otorrinolaringologista do Hospital São Vicente de Paulo/RJ e chefe da Equipe Sonora, que, além de explicar as terminologias sob o ponto de vista clínico, também atentou para o uso incorreto da expressão “surdo-mudo”.

“Antes mesmo do termo ‘surdo-mudo’, a própria palavra ‘surdez’ tem significados diferentes, dependendo de onde e por quem ela é usada. Para nós, otorrinolaringologias e fonoaudiólogos brasileiros e da maioria dos países de línguas latinas, o termo surdez significa uma diminuição parcial ou total da audição. Ou seja, a surdez pode ser classificada desde leve até profunda. Já alguns documentos da Organização Mundial de Saúde tratam a ‘surdez’ apenas como a perda auditiva de grau severo a profundo. Na maioria das vezes, a população em geral também carrega esse conceito da surdez como uma incapacidade total de ouvir. Já o termo ‘surdo-mudo’ foi durante muito tempo aplicado de maneira incorreta. Ele foi usado para designar as pessoas com surdez severa a profunda que não foram oralizadas, ficando assim, sem fala. O problema é que o uso da expressão ‘surdo-mudo’ leva a pensar que estamos diante de uma dupla deficiência, a surdez e a mudez. E quase sempre isso é errado. Para que crianças com esse grau de surdez avançado aprendam a falar (serem oralizadas), elas precisam de terapias fonoaudiológicas específicas e sobretudo, serem reabilitadas auditivamente. Isso requer o uso de AASI ou implantes cocleares, dependendo do caso. Atualmente, a maioria dos que nascem surdos e são submetidos a essa reabilitação, desenvolvem muito bem a fala. Por fim, vale lembrar que existem os surdos que não se oralizam por opção da família de não fazer a reabilitação auditiva, ou por terem outras deficiências além da surdez”, comenta o Dr. Luciano.

Há mais de um tipo de identidade surda?

De um lado, está a questão da afirmação da identidade e da luta por direitos de uma comunidade linguística (da LIBRAS) e, de outro, a busca por reabilitação auditiva e pelo desejo de voltar a ouvir por meio de tecnologias auditivas. Porém, neste último caso, também há a construção de uma identidade própria, de pessoas que têm dificuldades de ouvir, mas que utilizam o português como língua materna e que podem ou não usarem próteses auditivas também. Joaquim Emanuel L Barbosa, presidente fundador da Associação Brasileira dos Surdos Oralizados - ABRASSO, surdo bilateral profundo de nascença e usuário de implantes cocleares bilateral, conta um pouco sobre a construção da identidade oralizada, que ganhou forças sobretudo com a popularização da internet.

“O termo ‘surdo oralizado’ é anterior ao surgimento da internet. A internet se popularizou em 1994, e eu já era referido como oralizado em 1987, até antes disso. Provavelmente, foram os profissionais fonoaudiólogos ou médicos que cunharam o termo. Antes do Orkut, nós tínhamos um grupo, uma lista de e-mail do Yahoo Groups, a LSO - Lista dos Surdos Oralizados. Essa rede social reuniu surdos oralizados do Brasil todo para falar do tema e conhecerem um ao outro. Os participantes da LSO depois partiram para o Orkut, onde lá foram criadas comunidades de Surdos Oralizados, mostrando à várias pessoas surdas que elas não eram as únicas em sua região, e que existiam vários outros que eram também oralizados, tirando a sensação de isolamento. Hoje, nós temos vários grupos de Surdos Oralizados no Facebook, alguns blogs de autores na temática, como o ‘Desculpe, Não Ouvi’ da Lak Lobato, e o ‘Crônicas da Surdez’, da Paula Pfeifer”, detalha Joaquim.

Além da terminologia “surdo oralizado”, existem outras para se referir a esta categoria. Por exemplo, a autora Paula Pfeifer, citada acima no depoimento de Joaquim, criou também a expressão “Surdos que Ouvem”. “Eu usei esse termo pela primeira vez para dar nome a minha palestra no TEDx Talks, em maio de 2017. Foi a primeira vez em que eu fui convidada para fazer uma palestra para pessoas que não sabiam nada do tema da surdez. Tive um brainstorming muito produtivo com o meu marido, Luciano Moreira (otorrino) e daí surgiu o SQO. Minha intenção nunca foi criar um termo novo ou substituir o ‘surdos oralizados’, esse último muito mais correto do ponto de vista técnico. Mas o meu intuito foi criar curiosidade, pelo próprio nonsense do termo: ‘Como assim, surdo ouvir?’. De lá pra cá, a hashtag #surdosqueouvem ganhou vida própria e eu acabei adotando-a de vez”, diz Paula.

Lak Lobato, também autora de livros, blog e dois TEDx (aqui e aqui) sobre surdez e sua diversidade, costuma usar o termo “implantado” para se referir às pessoas com deficiência auditiva e usuárias de Implante Coclear. “Na prática, vira um estilo de vida para grande parte dos usuários dessa tecnologia. A gente incorpora um comportamento característico. Querendo ou não, nós temos uma maneira muito particular de ouvir”, explica.

Já Sônia Ramires, usuária de aparelhos auditivos (AASI), tem um blog cujo nome difere ligeiramente da expressão “surdos oralizados”. É o SULP – Surdos Usuários da Língua Portuguesa. “O termo surgiu numa discussão para redigir um manifesto. Eu propus um termo que nos distinguisse dos usuários da LIBRAS, mas que, ao mesmo tempo, englobasse os surdos que não falam, mas que são alfabetizados em português. Porque o termo ‘oralizado’ remete só a quem fala. Então a minha proposta foi Surdos Usuários da Língua Portuguesa. Para minha surpresa, o termo passou a ser usado. E repito, surdo oralizado é o surdo que fala. E eu sabia que havia surdos com dificuldades para falar ou que não falavam, mas que escreviam perfeitamente em português”, conta Sônia.

Superando as divergências

Diante de tantos pontos de vista diferentes e lutas por direitos diversos, é, de certa forma, compreensível que na história das comunidades sobre deficiência auditiva e surdez no Brasil (e no mundo) haja conflitos e até movimentos separatistas de ambas as partes. Mas, felizmente, acompanhando os movimentos atuais de respeito às diversidades humanas, muitos grupos, tanto de surdos usuários da LIBRAS quanto de deficientes auditivos/surdos oralizados, estão ampliando seus horizontes e interagindo cada vez mais entre si.

Aline Cordeiro, professora de português, surda usuária de LIBRAS e também de Implante Coclear bilateral, comenta sobre algumas tendências que observa na comunidade Surda de sua região (São Caetano do Sul/SP). “Hoje há muita diversidade. O uso de aparelhos auditivos já é bem aceito na comunidade surda. Só o implante coclear que ainda é polêmico em crianças, porque eles acham que o implante tem que ser feito por decisão própria da pessoa, sem imposição da família. Porém, entre adultos, já estão respeitando mais, desde que a pessoa não fique estimulando os outros a usarem também. Mas hoje há encontros de surdos que usam LIBRAS e/ou todos os tipos de aparelhos. No geral, todos estão mudando, estão mais abertos ao conhecimento, à aceitação do próximo, desde que haja respeito entre todos”.

Roner Barbosa, usuário de Implante Coclear bilateral e organizador de encontros de deficientes auditivos, implantados e surdos usuários da LIBRAS no Brasil, também apoia a questão da diversidade. “Somos todos surdos, independentemente de sermos oralizados, usuários da LIBRAS, implantados, etc. Eu batalho pela unicidade da surdez e abomino qualquer termo que possa nos separar”, diz.

Por meio de Roner, a ADAP teve conhecimento da existência de um grupo de Whatsapp chamado justamente de DS – Diversidade Surda. Criado por Nathielly Pereira, de João Pessoa/PB, que inicialmente buscava ter contato com outros indivíduos que perderam a audição já na idade adulta, assim como ela. “A surdez causa uma certa solidão, senti-me perder amigos por falta de comunicação e imaginei que seria ótimo fazer amizades, embora virtualmente, com pessoas que entendessem aquela fase que eu estava passando”, relata.

Com o tempo, o DS foi abrigando pessoas com as mais variadas causas de surdez e que também usam a LIBRAS. “Hoje temos inclusive um integrante no grupo que é professor do time brasileiro de surdos. Diariamente, alguns até mandam gifs ou vídeos com sinais em LIBRAS”, conta Nathielly. Já Caio Eduardo de Freitas, de Brasília/DF e um dos moderadores do DS, complementa: “Não conheço uma pessoa do grupo que seja contra a LIBRAS, apenas que não tenha vontade de aprender. O bom do DS é que todos se respeitam! No grupo, temos implantados e usuários de AASI que sabem LIBRAS e surdos oralizados que querem aprender também”.

Nathielly, Caio, Carla Bueno e Rodrigo Dias Martins, outros moderadores do DS, realizam também encontros informais para reunir os membros do grupo pessoalmente, e inclusive já fizeram até camisetas com o logotipo do Diversidade Surda, enfatizando a convivência harmônica entre todos.


* O
INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos) também foi contatado por e-mail (no dia 11/02/2019) para dar um depoimento sobre o tema, mas a Equipe ADAP não obteve um retorno deles até a data de fechamento (12/03/2019) desta reportagem.

 

* Crédito das imagens: arquivo pessoal dos entrevistados.

 

Por Ana Raquel Périco Mangili

Guia
Tech 4 Health
Vantagens

Faça sua doação

Contatos
Telefones:

(14) 3226-3388 (14) 3202-6091 (14) 3202-6092


Email:

Adap © 2019 - Todos os direitos reservados