76 - A importância da reabilitação auditiva e da comunicação

“Quando eu era pequena, fui extremamente observadora, uma vez que eu não conseguia acompanhar conversas em grupos de pessoas. Isso permitiu que eu amadurecesse de forma precoce. Mas também desenvolvi traços de personalidade ruins, tal como o isolamento, a dificuldade de me relacionar com as pessoas e sentimentos de vergonha e tristeza. Depois da reabilitação auditiva, abriu-se um mundo novo para mim. Consegui me relacionar cada vez mais com as pessoas, e os sentimentos de vergonha e tristeza são menores. Embora ainda haja dificuldades, minhas conquistas pós Implante Coclear foram realmente significantes e transformadoras”.

O depoimento acima é de Melissa Peres, universitária de 18 anos que teve perda progressiva da audição ainda na infância, atingindo o grau de surdez profunda por volta dos sete, oito anos. Como ela já tinha sido oralizada antes disso, teve acompanhamento fonoaudiológico e, aos 13 anos, recebeu seu primeiro Implante Coclear. Hoje, é bi-implantada e continua com suas terapias fonoaudiológicas para treinar a audição e melhorar sua comunicação interpessoal.

O que é, afinal, a reabilitação auditiva?

Segundo Elisa De Biase Hopman, Mestre em Fonoaudiologia pela PUC-SP e sócia fundadora da Clínica Aura, a reabilitação auditiva, além de proporcionar a adaptação a aparelhos auditivos e/ou Implantes Cocleares, implica no trabalho de estimular as habilidades auditivas, importantes para o paciente aprender/reaprender que escutar tem valor semântico e poder fazer uso dele. “Para isso, trabalhamos as habilidades auditivas, que são: detecção (habilidade de perceber o som), discriminação (habilidade de discriminar o som de dois ou mais estímulos auditivos, diferenciando-os se são iguais ou diferentes), reconhecimento (identificar o som e de onde ele vem) e compreensão auditiva (habilidade para entender os estímulos sonoros, responder perguntas, contar histórias). A reabilitação auditiva, portanto, é fundamental para que o indivíduo tenha uma linguagem e se torne um ser social”, explica Elisa.

O ato de se comunicar, além de ser uma necessidade social humana, também é importante para a estimulação das vias cerebrais e, inclusive, pode prevenir o aparecimento de doenças, como a depressão e o Alzheimer. “A reabilitação auditiva coloca a pessoa novamente em meio à sociedade. É necessária a reabilitação, seja por comunicação oral ou por língua de sinais. Não conseguir se comunicar leva a depressão e ao isolamento social. Nos idosos, por exemplo, o aparecimento de Alzheimer é mais precoce nesses casos, assim como seu declínio cognitivo”, afirma a otorrinolaringologista Drª. Angela Rubia Silveira, da clínica Centro Otorrrino.

Como se pode confirmar pelo depoimento da Drª. Angela, a LIBRAS também é considerada uma forma de reabilitação, pois proporciona a comunicação de maneira semelhante às línguas orais. A Mestre em Fonoaudiologia Elisa diz que, nesses casos, o papel do fonoaudiólogo na reabilitação tem um foco um pouco diferente daquele da abordagem oral. “Trabalham-se noções de linguagem, quantidade, auxílio na leitura e escrita do português como segunda língua. O ideal é que o fonoaudiólogo seja fluente ou tenha uma noção da LIBRAS. O professor de LIBRAS também é fundamental neste processo”.

Elisa explica que, quando o paciente é criança, a escolha por um método ou outro de reabilitação tem que ser feita o quanto antes, pois a plasticidade cerebral disponível para o aprendizado da linguagem é, aproximadamente, até os quatro anos. Então, geralmente, tal escolha é feita pela família da criança, orientada pelos profissionais, bem antes dessa idade limite. “O ideal é começar o trabalho de reabilitação quando a criança ainda é um bebê”, diz. Mas a profissional afirma que há outros fatores também que devem ser levados em conta na hora da opção pelo método de reabilitação.

“Acho que toda desinformação leva a um preconceito, se desconhece, muitas vezes, a real importância da LIBRAS para determinados casos. A LIBRAS está aí para possibilitar outro meio de linguagem, quando há impossibilidade de trabalhar a linguagem oral. Mas costumo dizer que família, escola e terapeuta formam um triângulo fundamental para trilhar os desafios e necessidades que demandam para termos um indivíduo inserido por inteiro na linguagem. O que não podemos esquecer é que a criança PRECISA estar inserida num programa de linguagem. Vejo muito filhos que fazem LIBRAS sem conseguir conversar com seus pais ouvintes. Quando os pais optam por um programa, precisam ser inseridos nele também”, enfatiza Elisa.

Aline Cordeiro, professora de português, surda usuária de LIBRAS e também de Implante Coclear bilateral, explica que cada forma de comunicação tem suas vantagens. “Eu, como pessoa bilíngue, me recordo que, quando não sabia LIBRAS e não era implantada, sofria isolamento em grupos, porque não conseguia conversar com todos, acompanhar a conversa. Sempre preferi a companhia de uma pessoa e evitava me agrupar com uma turma. Quando aprendi LIBRAS, comecei a me juntar com grupos de amigos, a participar de rodas de conversas. Hoje, sendo bilíngue e com a ajuda do Implante Coclear, diminuíram muito minhas dificuldades e isolamento. Se estou quieta em um canto, é por opção minha mesmo, e não por ter uma barreira na comunicação”.

Os impactos das questões sociais na comunicação

Visto a importância da reabilitação auditiva, Raquel Cassoli, Doutora em Psicologia da Educação pela PUC-SP, psicóloga escolar e professora universitária, faz uma observação muito pertinente ao tema: o cuidado que devemos ter de não associar unicamente a deficiência auditiva/surdez ao isolamento e ao aparecimento de transtornos como depressão e ansiedade. Para a profissional, questões sociais, como a falta de acessibilidade, de apoio da família e o preconceito, além das reações únicas de cada indivíduo frente às adversidades apresentadas, são fatores primordiais ao se analisar casos de isolamento e barreiras na comunicação dos indivíduos.

“As pessoas têm formas diferentes de lidar com os problemas e com a vida à sua volta. A surdez, hoje em dia, não pode ser considerada como sinônimo de isolamento. Há educação em LIBRAS e tecnologias diversas que possibilitam que o deficiente auditivo possa se desenvolver como ouvinte e evoluir em sociedade sem dificuldades. Desta forma, a deficiência em si não é um obstáculo, não pode ser considerada como único elemento que causa sensação de isolamento, nem como causadora de depressão, ansiedade ou outros transtornos. O que temos são famílias que rejeitam essa possibilidade de desenvolvimento e, ao invés de estimular, escondem o deficiente, ou pessoas com mais de uma deficiência, cuja dificuldade implica em mais obstáculos ao desenvolvimento e evolução acessível e, por fim, pessoas que já possuem pré-disposição ao desenvolvimento de depressão, ansiedade ou outro transtorno”, explica Drª. Raquel.

A reação negativa do meio social frente à deficiência se faz presente em boa parte dos relatos de pessoas com deficiência auditiva, como o de Lak Lobato, autora de livros e blog sobre surdez e Implante Coclear. “Falando como ensurdecida ainda criança, a sensação que tive foi como se tivessem me jogado numa bolha de isolamento sonoro. Tudo ao meu redor foi silenciado. O mundo perdeu todos os sons de uma hora para outra. Aquilo doeu muito. Aquilo me moldou muito também. Eu tinha sido uma criança comunicativa, alegre, cativante. De repente, passei a ser a esquisita da classe. As pessoas muitas vezes nem se aproximavam. Ou se aproximavam só para perguntar da surdez. Lógico que aprendi a lidar com a situação e fiz dela a melhor experiência possível. Mas seria mentira dizer que foi fácil. Eu tive que aprender a ser outra pessoa. Alguém que já não era bem recebida, alguém para quem olhavam com um misto de pena e nojo. Tive que aprender a passar por cima disso, a não deixar que isso me paralisasse. Essa parte social é a parte que mais vejo as pessoas relatarem de como é dolorosa”, conta.

Roner Barbosa, usuário de Implante Coclear bilateral e organizador de encontros de deficientes auditivos, implantados e surdos usuários da LIBRAS no Brasil, também relata lembranças dolorosas de quando perdeu a audição na pré-adolescência. “Meu primeiro sentimento como pessoa surda foi o MEDO. Medo de que algo ou alguém chegasse de repente e me atacasse, uma vez que eu não conseguia ouvir o mundo ao redor. Porém, o maior impacto foi o de cunho social. Foi ao perceber que meus amigos de infância agora se afastavam de mim. Os motivos alegados eram os mais diversos: 1) eu havia tido meningite, uma doença contagiosa e eles tinham medo de serem contaminados; 2) eles não sabiam como conversar com uma pessoa com surdez; 3) quando comecei a usar um aparelho auditivo (AASI), eles tinham medo de quebrar meu aparelho, nas brincadeiras de criança”.

Já Paula Pfeifer Moreira, também autora de livros e blog sobre surdez, considera que as experiências sociais negativas que teve no passado resultaram em um aspecto positivo em sua vida atualmente. “O preconceito das outras pessoas me magoou algumas vezes, mas hoje percebo que me tornou mais forte e om mais vontade de desmitificar a surdez, porque esse preconceito é gerado pela desinformação”.

Em relação aos Surdos usuários da LIBRAS, a professora de português Aline explica que a questão do preconceito e isolamento social varia muito. “Os surdos sinalizados que tem familiares fluentes em LIBRAS não tem esses problemas, eles vivem de boa. Têm amigos surdos, têm família que sabe LIBRAS. A comunicação está OK. Só têm outros problemas lá fora, mas nada grave. Podem contornar a situação numa boa porque a base familiar, que é a mais importante, está bem firme. Já os surdos sinalizados que não se comunicam com a família, sim, esses sofrem com isolamento e incompreensão dentro da própria família e muitas vezes buscam o consolo com os amigos que também são fluentes em LIBRAS. Vejo muitos casos de amizades sendo mais valorizada que a própria família, por falta de comunicação mesmo”.

Luís Mateus da Silva Souza, professor de Português/LIBRAS do Instituto Federal de São Paulo (campus Itaquaquecetuba) e participante da Associação dos Surdos de Bauru e Região (ASBA), é ainda mais enfático sobre esta questão. “Os impactos do preconceito são devastadores, ainda mais entre crianças Surdas em situação de vulnerabilidade. Essas crianças Surdas crescem sem dominar plenamente uma língua, são desassistidas pelo Estado, pela sociedade, às vezes, pelos familiares. Passam por inúmeros abusos, inclusive sexuais. Não é possível mensurar os resultados de tudo isso, mas uma coisa é certa, não podemos permitir que isso continue acontecendo”, alerta.

A importância da psicoterapia para a reabilitação auditiva

Para superar os impactos do preconceito e encarar de modo positivo o processo de reabilitação auditiva, a psicoterapia pode ser necessária em alguns casos. “Podemos dizer que a psicoterapia auxilia no desenvolvimento do autoconhecimento, para melhorar sua autoaceitação e autoconfiança, pois uma pessoa que não se deixa abalar com comentários destrutivos de outras pessoas, que aceite seus erros e suas fragilidades, que consiga se defender de forma adequada, pode lidar melhor com as adversidades da vida e as relações sociais diversas. No processo de reabilitação auditiva é fundamental se posicionar, saber falar sobre seus sentimentos em relação ao processo. No caso de uso de tecnologias, conseguir expor como que aquilo a auxilia no dia a dia, para avaliar suas perdas e ganhos, seu desempenho e conseguir sinalizar como outras pessoas podem ajudá-la”, detalha a doutora em Psicologia Raquel.

A autoaceitação é apontada pela psicóloga como um dos elementos principais para a manutenção da saúde auditiva e de uma boa comunicação interpessoal. Raquel Moreno, moradora de Piracicaba/SP e usuária de Implante Coclear há apenas cinco meses, ilustra bem essa situação.

“A minha lembrança mais remota sobre a surdez vem de 1996. Quando descobri que meu lado direito já não tinha audição. E, em 2003, recebi o primeiro diagnóstico de perda auditiva neurossensorial bilateral profunda. Não aceitei. Passei a viver em negação, dentro de um ‘armário da surdez’. Não queria ouvir a palavra ‘deficiente’ e nem ir mais aos médicos. Usava aparelhos auditivos só quando não dava conta da leitura labial. E eis que a leitura labial foi perdendo força com o passar dos anos e a perda auditiva se agravando. Em 2017, dormi ouvindo um pouco e acordei sem mais nada. Aí veio o desespero. Hoje, com cinco meses de ativação do IC, ainda com som robótico, dou atenção a cada barulho, me emociono ainda com os sons e sigo me adaptando a eles. Depois que saí do ‘armário da surdez’, não parei mais de falar da diversidade surda. Assumi a surdez para mim e para o mundo e estou em um processo de imersão em LIBRAS também”, finaliza.

 

* Créditos das fotografias: arquivo pessoal dos entrevistados.

 

Matéria por Ana Raquel Périco Mangili.

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