* Reportagem revista e atualizada em 06/01/2017.

Uma prática muito comum entre quem possui deficiência auditiva é “ouvir com os olhos”. Não nos referimos aqui ao uso da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, mas sim à técnica da Leitura Labial (também chamada de Leitura Orofacial), muito usada entre os adeptos do Oralismo, isto é, deficientes auditivos cuja língua materna é o Português e que usam sua fala e resíduos auditivos para se comunicar oralmente. A Leitura Labial consiste na observação do posicionamento dos lábios do falante para que, junto com os sons ouvidos (ou não), a pessoa com deficiência auditiva consiga ter uma maior facilidade para compreender a mensagem falada pelo outro.

Élen Muzy, que adquiriu surdez profunda devido à meningite e implantada há mais de 15 anos, conta sobre a importância da Leitura Labial em sua vida. “Quando perdi minha audição aos 11 anos de idade, no começo foi muito difícil. Eu estava com uma nova vida e não conseguia entender ninguém. Tinha que ficar andando com um caderno para que as pessoas escrevessem o que falaram quando eu não entendesse. Isso era muito chato e me deixava para baixo. Então eu fui aprendendo sozinha a Leitura Labial, na escola e no dia a dia. Mas como eu não ouvia mais, e minha fala estava mudando, tive que ir para a fono. Lá, fazia exercícios para não deixar a fala de lado e treinava também a Leitura Labial. Hoje, com o Implante Coclear, eu escuto muito bem, mas não consegui deixar o hábito de ler lábios. Eu pratico os dois, a audição e a leitura. É como um vício mesmo”, conclui.

Não são apenas os indivíduos com surdez que utilizam esta técnica. Em ambientes barulhentos, as pessoas ouvintes também podem buscar apoio na Leitura Labial para ajudar na compreensão da fala alheia. Pesquisadores do Instituto Max Planck para Cognição Humana e Ciências Cerebrais (Alemanha) descobriram, em 2012, que o sulco temporal superior esquerdo (região do lobo temporal cerebral) é a área do cérebro, presente em todos os humanos, responsável por entender o que uma pessoa diz sem escutá-la direito. Quanto maior a ativação do sulco temporal superior esquerdo, melhor será a habilidade de Leitura Labial de cada pessoa.

Também em 2012, outro estudo realizado no Florida Atlantic University (Estados Unidos) revelou que os bebês fazem uso da Leitura Labial nos seus pais para aprender a falar. Com o desenvolvimento da audição e da linguagem da criança, por volta do primeiro ano de vida ela abandona o uso desta técnica. Porém, nas crianças com deficiência auditiva, dependendo dos estímulos recebidos e do grau da perda da audição, a Leitura Labial poderá continuar sendo usada ao longo da vida.

Este foi o caso de Melissa Peres, de 14 anos e implantada desde fevereiro de 2013. “A Leitura Labial foi uma coisa que eu aprendi naturalmente, pois sem isso não conseguiria viver no mundo dos sons hoje. Mas eu acho que começou quando eu aprendi a falar, pois para falar, temos que conhecer as palavras, e para conhecê-las, temos que ouvi-las. Como, no meu caso, eu não ouvia, então comecei a observar de onde as palavras saíam, e assim aprendi a captar as palavras”, conta.

As limitações da Leitura Labial

Sabe-se que esta técnica auxilia muito na adaptação do indivíduo com surdez aos seus Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI) ou Implante Coclear (IC). Recomenda-se o uso da leitura dos lábios junto com os resíduos auditivos do paciente porque a Leitura Labial não é um método infalível. Diz-se que até o melhor leitor labial só consegue compreender em torno de 50% das palavras articuladas sem som, pois muitos fonemas (unidades mínimas das palavras) possuem uma articulação invisível ou a mesma articulação que outros. A pronúncia de sons como “p” e “m”, “d” e “n” e “s” e “z”, pode ser facilmente confundidas entre si.

Daí observa-se que o contexto da mensagem, assim como a intuição e a experiência do leitor labial, influencia muito no sucesso da comunicação através desta técnica. O mesmo vale para a Leitura Labial em outros idiomas. No inglês, por exemplo, estima-se que apenas 30% a 40% dos sons são distinguíveis de vista. Renata Orsi, recém-implantada este ano e residente nos EUA, nos conta um pouco sobre suas experiências por lá.

“Creio que aprendi esta técnica instintivamente, desde a infância, e agora faço Leitura Labial também em inglês, porque moro nos EUA. O inglês é mais difícil, já que não é minha primeira língua, e tem mais palavras labialmente parecidas do que no português. Como tenho um residual auditivo razoável, que faz com que eu tenha um ganho bom com o AASI no outro ouvido, consigo diferenciar. Claro que tenho muitas dificuldades, e peço para falarem mais devagar, mas estou fazendo a reabilitação auditiva nos dois idiomas: em inglês e também em português”, diz Renata.

A Leitura Labial exige muito mais esforço do que a comunicação apenas por meio da audição. As mensagens podem levar alguns segundos a mais para serem entendidas pelos praticantes da técnica, que, pela concentração visual que devem manter, sentem-se com a visão mais fatigada ao final do dia. Empecilhos também podem ocorrer e dificultar a comunicação, como quando o interlocutor tampa inconscientemente a boca com a mão ou outro objeto, o formato dos lábios ou se a pessoa articula bem eles, o movimento ou desvio da cabeça do falante, a iluminação do local e se há mais de uma pessoa falando ao mesmo tempo.

Como aprender a ler lábios?

A grande maioria dos leitores labiais aprende a técnica sozinhos, com o treino diário. Segundo a fonoaudióloga da ADAP, Marcella Giust, a prática no dia-a-dia, observando os lábios das pessoas durante as situações comunicativas, é a melhor forma de se adquirir esta técnica. Mas as crianças, principalmente, costumam treinar a Leitura Labial com o apoio do profissional fonoaudiólogo, que neste caso pode se utilizar de uma sequência gradativa de reconhecimento das palavras (fonemas, vocábulos e frases), bem como material de suporte, como espelhos e vídeos legendados. Também muitas vezes é importante avisar à pessoa com quem se conversa para ela falar em um ritmo mediano, não muito rápido, mas também não muito lento, e articular bem as palavras. Para conhecer algumas dicas de Leitura Labial, clique aqui.

A implantada Cindia Tomasi Panciera comenta sobre como sua fonoaudióloga lhe ensinou a ler lábios. “Aprendi logo depois que fiquei surda, com oito anos de idade. Foi difícil no começo, mas logo me adaptei. A fono fazia comigo exercícios de pronúncia de fala olhando no espelho, encostando a mão na garganta para eu sentir como deveria falar também. Aí, em casa, minha mãe me ajudava a continuar os exercícios”.

Já Luismar Alves de Souza conta que aprendeu sozinho a técnica da Leitura Labial. “Na época da perda auditiva, aos 12 anos de idade, usei de várias artimanhas para treinar ler lábios. Fazia perguntas que eu mesmo já sabia a resposta, com a intenção de confirmar. Inventava palavras, frases e textos. Escrevia e pedia para minha irmã recitar para mim sem eu saber qual era a frase, e ficava olhando em sua boca, lendo os lábios dela. Tive um resultado satisfatório, alcançando a excelência de acordo com a melhora de minhas condições clínicas. Agora, depois do IC, continuo na mesma prática, porém, houve uma alteração considerável, pois preciso aprender a conciliar o barulho da voz, que ainda é só um arranhado, com a leitura labial. Esta dificuldade se torna mais amena nas fonoterapias, porque as fonoaudiólogas tem conhecimento, são treinadas em suas atividades profissionais”, relata.

Uma curiosidade extra: em 2009, pesquisadores da Universidade Britânica East Anglia, em parceria com outras instituições, desenvolveram o protótipo de um software de Leitura Labial para auxiliar no reconhecimento de discursos captados em vídeos. Assim como em alguns processadores de textos, basta a pessoa começar a falar e o programa identifica automaticamente o idioma e o transforma em palavras escritas. Até o momento, o software consegue detectar os seguintes idiomas: inglês, francês, alemão, árabe, mandarim, cantonês, italiano, polaco e russo.

 

* Fontes das imagens: Pixabay e Gallery Hip.

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.