* Reportagem atualizada em 06/04/2016. Confira abaixo novas informações e um trecho exclusivo sobre o DPAC na escola.

Quando se percebe que uma criança apresenta dificuldades de compreender a fala humana, a primeira suspeita que se costuma levantar é a da presença de uma deficiência auditiva. As perdas auditivas mais comuns são as do tipo condutivas e neurossensoriais. Porém, e se os exames audiométricos não apontarem alterações nos limiares auditivos (os sons mínimos que o indivíduo consegue ouvir)? Nesses casos, deve ser considerada e investigada a existência de outro tipo de distúrbio relacionado à audição, mas que, ao mesmo tempo, não é classificado como deficiência auditiva. É o pouco conhecido Distúrbio do Processamento Auditivo Central (DPAC), também chamado de Disfunção Auditiva Central ou Transtorno do Processamento Auditivo.

 O DPAC é caracterizado por afetar as vias centrais da audição, ou seja, as áreas do cérebro relacionadas às habilidades auditivas responsáveis por um conjunto de processos que vão da detecção à interpretação das informações sonoras. Na maior parte dos casos, o sistema auditivo periférico (tímpano, ossículos, cóclea e nervo auditivo) encontra-se totalmente preservado. A principal consequência do distúrbio está na dificuldade de processamento das informações captadas pelas vias auditivas. Assim, a pessoa ouvirá claramente a fala humana, mas terá dificuldades em interpretar a mensagem recebida.

 

Fonte da imagem: UOL/Folha, citado por http://neuropsicopedagogiaemfoco.blogspot.com.br/

 

Segundo Ademir Antonio Comerlatto Junior, Fonoaudiólogo, Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo – USP, e profissional consultor da Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear (ADAP), as habilidades envolvidas no processamento auditivo são: detecção, localização e lateralização, discriminação, reconhecimento, aspectos temporais da audição (resolução, integração, mascaramento e ordenação) e escuta com estímulos degradados ou competitivos. O DPAC pode atingir uma ou várias destas habilidades, em diferentes graus.

Gilda Viana, mãe do Cauã, de nove anos, comenta sobre as dificuldades auditivas de seu filho. “Ele foi encaminhado à fono pela escola devido à troca nos fonemas, somente na escrita, P com B, D com T, F com V, C com G. Fomos em uma fono em que não obtivemos grandes avanços, então tirei-o desta fono e coloquei ele no Kumon. Mas, no início deste ano, a escola pediu que o levasse novamente à fono, e por sorte encontrei uma excelente profissional, que pediu o exame DPAC, onde o resultado deu positivo, de grau moderado. O problema dele é mais na decodificação dos sons”, afirma.

As causas e o diagnóstico do DPAC

As causas do DPAC podem ser variadas e muitas vezes desconhecidas, contudo as mais comuns são de origem genética, otites de repetição, lesões cerebrais por anóxia ou traumatismo craniano, presença de outros distúrbios neurológicos, atraso maturacional das vias auditivas do Sistema Nervoso Central ou por envelhecimento natural do cérebro. Por isso, a maior parte dos diagnósticos é feita em crianças e idosos.

Comerlatto lista, a seguir, os principais sintomas que podem ser percebidos na criança com DPAC:

  • Dificuldade de memorização em atividades diárias;
  • Dificuldades acadêmicas para ler e escrever;
  • Fadiga atencional em aulas ou palestras;
  • Troca de letras na fala ou escrita;
  • Demora em compreender o que foi dito;
  • Dificuldades em compreender informações em ambientes ruidosos;
  • Desatenção e distração;
  • Solicita repetição constante da informação;
  • Agitação;
  • Dificuldade para entender conceitos abstratos ou duplo sentido;
  • Dificuldade para executar tarefas que lhe foram solicitadas;

O DPAC pode vir acompanhado de outros distúrbios, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Este é o caso de Victor Gabriel, de oito anos. Sua mãe, Sonia Freitas, conta que, junto com o DPAC, seu filho também recebeu o diagnóstico de TDAH. “Meu filho foi diagnosticado com DPAC e TDAH. Após avaliações com neuropediatra, testes psicológicos e exames fonoaudiológicos que acusaram a origem dos problemas, hoje ele necessita de medicação (Venvanse, 30mg), acompanhamento com psicopedagoga e terapia de cabine com a fonoaudióloga. Ele já foi alfabetizado e está no segundo ano escolar”.

Mas não é sempre que o DPAC virá acompanhado de outros diagnósticos. Na verdade, ele é muito confundido com o TDAH, por ser menos conhecido do que este último, como complementa a mãe Gilda Viana. “O DPAC é complicado, pois a criança não consegue aprender, entender, e isso acarreta muitas coisas que as pessoas desconhecem. Já vi relatos em grupos de indivíduos que descobriram o distúrbio somente quando adultos, e isso ocasionou uma vida escolar inteira de reprovas e dificuldades. Muitas pessoas passam por psicólogos e são tratadas como se tivessem outros distúrbios, como a hiperatividade, e na realidade não é nada disso”.

Nos mais jovens, é de extrema importância que o diagnóstico seja efetuado o quanto antes, para que as dificuldades no aprendizado escolar sejam superadas mais facilmente. O cérebro humano tem, principalmente durante a infância, uma grande flexibilidade em seu desenvolvimento, o que é chamado de plasticidade neural. Com o tratamento fonoaudiológico e o apoio de uma equipe pedagógica adequada desde cedo, a criança possuirá muito mais chances de um ótimo desempenho escolar, pois seu cérebro estará sendo treinado a compensar, através da propriedade da plasticidade citada acima, as falhas neurológicas das vias auditivas centrais.

O diagnóstico do DPAC é composto de procedimentos um pouco mais elaborados do que as análises audiométricas comuns, pois é importante diferenciar a perda de audição localizada no órgão sensorial (ouvido) da alteração do processamento auditivo central. Para isso, é exigido, além das audiometrias padrão, testes para PAC (discriminação, temporais, dicóticos, monóticos, baixa redundância, eletrofisiológicos e eletroacústicos) e de avaliação do desenvolvimento linguístico e do comportamento auditivo. Sugere-se que a idade mínima para que tal diagnóstico seja realizado é a partir dos sete anos, e estes exames são realizados pelo próprio profissional fonoaudiólogo, com ou sem o uso de cabina acústica (o que depende da especificidade de cada caso), porém, ainda não são muito comuns e não costumam fazer parte da rotina dos hospitais públicos brasileiros. Apenas alguns convênios particulares cobrem tais procedimentos.

Os exames apontarão em quais habilidades auditivas a criança possui maior dificuldade, e isto servirá de orientação para a escolha dos exercícios e das técnicas de treinamento auditivo que o fonoaudiólogo exercitará com a criança em um trabalho terapêutico. Atividades, jogos e o uso da cabina acústica são alguns dos recursos utilizados na reabilitação, como explica o fonoaudiólogo Comerlatto.

“O treinamento auditivo é um dos métodos terapêuticos utilizados na reabilitação auditiva no DPAC e pode ser definido como o uso de um conjunto de tarefas acústicas pré determinadas com objetivo de ativar e/ou modificar o sistema auditivo. Existem dois modelos de treinamento auditivo, o informal, que se refere a intervenções terapêuticas sem o uso de equipamentos específicos para o controle dos estímulos acústicos trabalhados. Muitas vezes é indicado para crianças menores por conta de fatores como a atenção e motivação, visto que a atividade pode ser conduzida com maior facilidade por meio do lúdico, como jogos e brincadeiras. E o formal, que refere-se ao processo terapêutico onde são utilizados equipamentos eletroacústicos que possibilitam o controle dos estímulos utilizados em sua duração, frequência e intensidade. Este modelo pode ser conduzido, por exemplo, com o uso de um computador e em cabina acústica com o uso do audiômetro”.

Um trabalho multidisciplinar que envolva também os pais, a escola e os professores é de extrema importância para o desenvolvimento global do indivíduo com DPAC.

O DPAC na escola

Devido às dificuldades de se processar as informações adquiridas pelas vias auditivas, o aluno com DPAC poderá enfrentar grandes obstáculos no modelo de ensino tradicional brasileiro, em que as aulas são ministradas oralmente pelo professor. Adiciona-se a essa questão o desconhecimento do DPAC pelas escolas e seus profissionais, o que acaba dificultando ainda mais as vivências do aluno nesse ambiente, podendo gerar desde baixa autoestima até dificuldades na socialização, como comenta Gilda Viana sobre o seu filho Cauã.

“Na escola é muito complicado, pois os professores não estão habituados a lidar com o distúrbio do processamento auditivo, e nem o conhecem. A fono do Cauã teve que ir à escola dele orientar como deveria ser o processo de ensino para ele. Deu dicas como sentar na primeira carteira da fileira do meio, receber explicações direcionada somente a ele, entre outras. Cauã estava com baixa autoestima, pois era muito difícil para ele não conseguir compreender as aulas”, explica.

É grande a importância de um trabalho multidisciplinar que integre a família, a escola, os professores, os profissionais fonoaudiólogos e psicopedagogos para apoiarem o aluno com DPAC, oferecendo alternativas de absorção dos conteúdos e estimulando o aprendizado dessas crianças. A mãe Sônia Freitas conta sobre as estratégias usadas para seu filho Victor Gabriel e como a escola cumpre o que é pedido.

“As recomendações são: colocar o aluno nas primeiras carteiras, longe de distrações, quando falar, olhar diretamente para o rosto do aluno e próximo a ele, certificar se ele realmente entendeu os comandos e o que deve ser realizado, se possível, dar mais tempo para a realização da avaliação e, se necessário, fazer a leitura da prova para ele. São várias estratégias que se pode ter de acordo com a necessidade. Mas a escola só segue as recomendações porque eu estou quase todos os dias lá e fico no pé de todo mundo”.

Infelizmente, em muitos casos a escola não dá a devida atenção às necessidades específicas do aluno com este distúrbio auditivo, preferindo taxa-lo de “preguiçoso” ou “incapaz”, conforme nos relata Soleci Gottardo, mãe do João, de dez anos, que passou por uma experiência preconceituosa na antiga escola em que estudava.

“As dificuldades do João começaram a aparecer em 2013, quando ele deveria se alfabetizar. A escola me chamou e disse que ele não estava conseguindo evoluir e que eu deveria procurar ajuda. A médica pediu todos os exames, e entre eles, o exame de processamento auditivo, e no final veio o diagnostico do DPAC. Então, ele começou um acompanhamento com uma fonoaudióloga e continua também com a psicopedagoga. Mas tive que trocá-lo de escola na metade do ano, porque a escola insistia que o João não fazia as atividades porque não queria e que só escutava aquilo que era conveniente para ele. Eu levei todos os exames e atestados, mas a escola não entendeu ou não quis entender, e simplesmente o expulsou de lá. O pior foi que eles falaram para o João para ele procurar outra escola e que ele não precisava nem ir para a aula no dia seguinte. Fui lá conversar, mas o colégio não mudou de opinião, e no último dia, quando fui buscar a transferência, eles afirmaram que o João não tinha problema de aprendizagem, mas sim falta de limite e que ele não tinha se adaptado ao método do colégio. A diretora chegou a falar que não adiantava ficar com uma criança que produzia menos que as outras”, conta Soleci.

Atualmente, João está em uma nova escola, que tem proporcionado o apoio necessário para o seu aprendizado e bom desenvolvimento. “A troca de escola foi fundamental para ele, tanto para seu desenvolvimento acadêmico como para sua autoestima. Ele simplesmente adora as professoras. A partir de uma nova abordagem dada pela nova escola, foi possível fazer um trabalho em conjunto: escola, terapeutas e família. Hoje, ele quase não tem mais trocas de fonema na escrita e consegue responder as mesmas provas dos amigos. Eu estou super tranquila em relação ao futuro do meu filho. Sei que ele tem capacidade e, com o tempo, ele mesmo vai encontrando seus próprios meios de aprender. Participar ativamente das atividades de reabilitação foi fundamental para ver como o João percebia o mundo ao seu redor”, diz a mãe.

Tratamentos alternativos e orientações aos professores

Além do acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, outra opção para auxiliar a criança com DPAC é o uso do Sistema de Frequência Modulada (FM) na escola, pois este equipamento também pode ser utilizado em indivíduos sem perda auditiva periférica. O FM amplificará a voz do professor, fazendo com que a criança volte sua atenção mais facilmente para o que este explica em sala de aula. E se, além do DPAC, o diagnóstico também apontar perda auditiva condutiva ou neurossensorial, a criança deverá usar AASI (Aparelhos de Amplificação Sonora Individual) ou Implante Coclear, dependendo do grau de sua perda. Comerlatto explica a importância de uma estimulação auditiva precoce para se prevenir o DPAC.

“O DPAC pode vir a ocorrer de forma secundária à outra alteração, como por exemplo, a perda auditiva, tanto em crianças, adultos e idosos. O nosso sistema auditivo é plástico, ou seja, ele se modifica de acordo com seu uso. Esta plasticidade pode ocorrer de forma “positiva”, como são os casos dos treinamentos, mas também ela pode ocorrer de forma “negativa” referindo-se a perda da capacidade de desempenhar determinada tarefa por algum motivo. Por exemplo, se uma criança vier a ter uma perda auditiva permanente e não for realizado um processo de reabilitação com o uso de Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) ou outro dispositivo auditivo que permita que o som ambiental seja detectado em um nível de intensidade apropriado, as habilidades envolvidas no processamento da informação acústica não estarão sendo utilizadas adequadamente e, em consequência, o sistema nervoso auditivo central entende que este processo não possui tanta importância, reduzindo assim, as conexões sinápticas e enfraquecendo este processo”.

O fonoaudiólogo também dá algumas orientações sobre como os professores podem ajudar a criança com DPAC em sala de aula. “Em momentos importantes da vida da criança, como a alfabetização e demais processos acadêmicos, os professores não só podem como devem utilizar estratégias que facilitem o input (entrada) da informação auditiva a crianças com diagnóstico de DPAC. Como, por exemplo, proporcionar menor distância entre ele e a criança, evitar posicionar a criança próximo de portas e janelas, procurar falar de forma clara e pausada, de frente para a criança, evitar falar em momentos de muito barulho e sempre que possível fornecer as instruções e atividades próximo a ela. O controle acústico do ambiente onde a criança está exposta deve ser o mais silencioso e menos reverberante possível, objetivando a compreensão da informação com o mínimo de ruído mascarante”, finaliza.

 

Referências consultadas

(Central) Auditory Processing Disorders. Disponível em: http://www.asha.org/policy/TR2005-00043

PEREIRA L.D. & SCHOCHAT,E. Processamento Auditivo Central – manual de avaliação. São Paulo, Lovise, 1997b. p.49-59.

______. Testes Auditivos Comportamentais para Avaliação do Processamento Auditivo Central. Pró-Fono. 2011. 82p.

 

Fotos: arquivos pessoais dos entrevistados.

Matéria produzida por Ana Raquel Périco Mangili.