* Reportagem revista e atualizada em 06/01/2017.

Quando você chega em casa cansado(a) do trabalho, pensando que finalmente irá descansar, mas percebe que não está sozinho(a), devido a um barulho incessante em sua cabeça, saiba que o zumbido (conhecido no jargão médico por tinnitus ou acúfeno) também faz companhia para mais de 28 milhões de brasileiros, e às vezes chega a atingir cerca de 24% da população de outros países. Em pesquisas sobre saúde, o tinnitus foi considerado pelas pessoas o terceiro pior sintoma para se conviver, sendo superado apenas pelas dores e tonturas intensas. Apesar da gravidade do problema, que afeta drasticamente a qualidade de vida de quem o possui, as opções de tratamento existentes ainda são muito pouco divulgadas, mantendo dessa forma o mito popular de que “o zumbido não tem cura”.

Esse mito é fortalecido devido à grande dificuldade de se estabelecer as causas do tinnitus em cada paciente. Sabe-se que 90% dos casos estão diretamente relacionados à perda auditiva, mas o grande desafio dos médicos é precisar exatamente em qual área do sistema auditivo humano o zumbido é gerado. Além disso, há também as etiologias de origem não propriamente por lesão auditiva, estimadas em mais de 200 fatores diferentes, entre eles, o excesso de cerume, efeitos colaterais de alguns medicamentos, diabetes, acúmulo de líquidos, pressão arterial elevada, tumor no nervo auditivo, níveis muito altos de triglecerídios no sangue, envelhecimento e estresse.

No caso de Solange Santana, moradora de Boa Vista/Roraima, foi devido à cirurgia para a retirada de um tumor no cérebro que ela adquiriu perda auditiva de grau severo/profundo e também o zumbido. “Fiquei com muitas sequelas da cirurgia, vou citar algumas: perda do paladar, paralisia facial, não tenho mais lágrimas, problemas de locomoção, perda severa/profunda da audição e muito zumbido. Parece que mora um avião na minha cabeça. Mas, com o passar dos tempos, estou até acostumada, porém às vezes incomoda bastante”, diz.

 

Fonte da imagem: Biosom.com.br

Assim, as causas do zumbido são as mais variadas possíveis, podendo ser de origens auditivas, metabólicas, hormonais (tireóide principalmente), cardiovascular (circulação sanguínea), consequências de distúrbios neurológicos ou psiquiátricos, alterações odontológicas ou musculares da região de cabeça e pescoço. E não é incomum a associação de duas ou mais causas em um mesmo paciente. Alguns estudos também sugerem que o tinnitus tem maior prevalência entre as mulheres.

Um exemplo de como o zumbido pode ter múltiplas causas é a própria história de quem escreve esta matéria. Eu, Ana Raquel Périco Mangili, tenho perda auditiva neurossensorial de grau moderado, e também Distonia, um distúrbio neurológico-motor que afeta os movimentos do copo. Sempre convivi com o tinnitus desde criança. Porém, em períodos de estresse ou de rigidez muscular, o zumbido aumenta, sobretudo em meu ouvido direito, pois, devido a Distonia, os músculos do lado direito do pescoço se retraem frequentemente, ocasionando uma tensão nas áreas subjacentes da cabeça e fazendo piorar o tinnitus originado da minha perda auditiva.

O zumbido como defesa natural do corpo

Normalmente, quando nos expomos a ruídos muito altos por um certo período de tempo, o zumbido aparece momentaneamente como um alerta do próprio corpo para o uso prejudicial de nossa audição. No caso de pessoas com perda auditiva, o tinnitus acontece de forma semelhante à “síndrome do membro fantasma”, que atinge pessoas amputadas. O cérebro, nas duas situações, age como se aquela parte perdida do corpo continuasse ali, funcionando. Na cóclea ou no nervo auditivo, as células lesionadas mandam estímulos elétricos erráticos a todo o tempo para o cérebro, que os interpreta como sons, originando o constante e irritável zumbido.

Como percepção subjetiva, cada pessoa tem uma forma de mensurar o barulho que o tinnitus lhe causa. Ele pode ser na forma de apito, chiado, cigarra, grilo, abelha, cachoeira, motor, sirene, panela de pressão, ou ainda sons rítmicos, como batidas do coração, cliques e o bater de asas de borboleta. Nesse site aqui, pesquisadores brasileiros agruparam diversos arquivos de áudio que se assemelham aos tipos de zumbidos relatados por alguns pacientes.

A existência do tinnitus subjetivo pode ser comprovada através de exames funcionais do cérebro, que vão indicar um aumento da atividade metabólica na região do córtex auditivo da pessoa. Porém, existem também os chamados zumbidos objetivos (ou para-auditivos), que são sons gerados por estruturas vasculares e musculares próximas às vias auditivas e que podem ser percebidos por outra pessoa, além do paciente. Nesse caso mais raro, o tratamento é geralmente medicamentoso.

As variadas opções de tratamento

De fato, em alguns casos, os medicamentos são de grande eficácia para a diminuição do zumbido, inclusive os extraídos de plantas medicinais, como a ginkgo biloba. Um estudo brasileiro, em 2004, mostrou que o acamprosato, medicação utilizada no tratamento do alcoolismo, também é eficaz e seguro para o tratamento do zumbido. Outros remédios das categorias dos antiarrítmicos, antidepressivos, vasodilatadores, tranquilizantes, anticonvulsivos e anti-histamínicos podem ser úteis ao tratamento, que vai depender da análise médica a fim de se descobrir a causa do tinnitus no paciente.

Um avanço na área farmacêutica se deu em 2011, quando neurocientistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriram em experimentos que o zumbido está relacionado com níveis mais baixos de neurotransmissores inibidores do GABA (ácido gama-aminobutírico) no cérebro humano. Então, eles testaram duas drogas que aumentam o nível de GABA e conseguiram eliminar o tinnitus nos ouvidos de ratos. Por enquanto, essas drogas têm efeitos colaterais graves e não podem ser usadas em seres humanos, mas já é um grande avanço nos estudos em busca de uma cura definitiva para o zumbido.

Outro tratamento para o tinnitus é a terapia comportamental TRT (Tinnitus Retraining Therapy). Desenvolvida na década de 90, a Terapia de Habituação ao Zumbido consiste em fazer o paciente se acostumar com o som interno a ponto de não mais notá-lo no dia a dia. É um treinamento psicológico, que pode contar também com o recurso dos Geradores de Sons, pequenos aparelhos semelhantes aos aparelhos auditivos tradicionais, só que, ao invés de amplificar os sons, na verdade geram um ruído contínuo e que costuma ser agradável, com o objetivo de tirar o foco da atenção do paciente sobre o próprio zumbido. Atualmente, os Geradores de Sons podem ser acoplados a alguns modelos de aparelhos auditivos, facilitando o tratamento para quem também tem perda de audição. A Siemens (aqui) é a empresa de saúde auditiva, disponível no Brasil, que possui a maior linha de opções desse tipo de aparelhos, inclusive com modelos híbridos de AASI/Gerador de Sons e à prova d’água.

A empresa Biosom também comercializa um produto para a melhora do zumbido, o Hearing Guardian V1 (aqui). Ele é um software de computador com funções parecidas com as de um Gerador de Sons, e o paciente o usaria quando estivesse conectado ao seu computador, semelhante ao hábito de se ouvir músicas enquanto executa outras tarefas virtuais.

Outros métodos de tratamento para o tinnitus menos conhecidos são a Estimulação Magnética Transcraniana (que consiste na aplicação diária de estímulos magnéticos de baixas frequências na região temporal do cérebro durante aproximadamente dez dias), a Estimulação Elétrica da Via Auditiva (os estímulos são aplicados diretamente sobre as estruturas neurossensoriais da cóclea) e também a acupuntura e a hipnose.

AASI’s e Implantes Cocleares como soluções para o zumbido

Já para quem possui o zumbido devido à deficiência auditiva, os AASI (Aparelhos de Amplificação Sonora Individual) e os Implantes Cocleares são as alternativas mais indicadas para a melhora do quadro clínico, dependendo de cada caso. Em um estudo brasileiro feito em 2004, a maioria dos pacientes (cerca de 87%) referiu melhora do zumbido com o uso de AASI, sendo que em 51% destes o zumbido desapareceu completamente. Em outro estudo brasileiro de 2001, a presença de zumbido em candidatos ao IC foi constatada no acompanhamento de 13 pacientes analisados pela pesquisa. Após dois meses de uso constante do Implante, o zumbido apresentou melhora importante em oito dos casos (61,5%), permaneceu inalterado em três (23,1%) e piorou em dois casos (15,4%). Outras pesquisas sugerem que o IC é benéfico para o controle do tinnitus em cerca de 80% dos casos, e que a piora do quadro clínico ocorre em menos de 10% das situações.

Para Celia Ricardi Marcelo, o uso do AASI já alivia um pouco seu zumbido, e ela não vê a necessidade de recorrer ao Implante Coclear. Celia tem perda profunda no ouvido direito desde a infância devido a uma infecção que contraiu quando era bebê, mas foi após um grave tombo no trabalho que adquiriu o tinnitus e perdeu quase toda a audição do ouvido esquerdo. “Trabalhando numa empresa, acabei caindo quando estava descendo a escada, nos dois últimos degraus escorreguei, caí de costas no chão, bati muito forte e cortei a cabeça. A partir daí o pesadelo começou. Na hora já perdi a audição e depois adquiri o terrível zumbido, que eu ouvia 24 horas por dia, com grande intensidade”, conta.

Vera Botelho, implantada bilateralmente, explica a diferença dos resultados de cada um dos implantes sobre o seu tinnitus. “Comecei a perder a audição com 40 anos, ocorreu gradativamente. E explicação por essa perda foi muito antibiótico que tomei na juventude por conta de uma sinusite. Na verdade tentei usar aparelhos convencionais, mas não me adaptei. Tinha muito problema de zumbido e sensibilidade no ouvido esquerdo. Em 2007, soube do Implante, resolvi fazer, e graças a Deus voltei a ouvir. Mas o zumbido continuou, com o IC não me incomoda, mas quando tiro ele começo a sentir o incômodo. Então, resolvi fazer novo Implante no ano passado, pensei que o zumbido iria desaparecer, mas o médico resolveu preservar o resíduo da audição na cirurgia, não fez como da outra vez. O resultado é que, quando estou sem os IC, fico ouvindo o zumbido e aquela sensação de ouvido tampado, como se tivesse no avião. Por isso, só tiro os aparelhos para dormir e tomar banho”, conta Vera.

No caso de Renata Orsi, implantada recentemente, ela relata que, apesar de nunca ter tido zumbido no ouvido implantado, o IC fez com que ela percebesse a existência do tinnitus na outra orelha. “Só tenho zumbido no ouvido não implantado, apenas quando não estou com o AASI. Talvez porque eu sempre usei o AASI, e quando fico sem ele algumas horas por dia para "treinar" o ouvido implantado, consigo perceber um leve zumbido”, diz.

Relato parecido é o de Marli Scheifer Camargo. “Fui implantada e ativada há quatro meses. Antes usava ASSI nos dois ouvidos. Tinha muito zumbido, como uma cachoeira. Depois da ativação do implante, que foi no ouvido direito, o zumbido continua apenas no ouvido que não foi implantado. No ouvido implantado não tenho mais nenhum zumbido. Por isso não vejo a hora de fazer o bilateral”, afirma.

Nos primeiros dias após a cirurgia do Implante Coclear, o zumbido pode piorar, principalmente nos casos onde há resíduo auditivo significativo antes da cirurgia. Porém, gradualmente o sintoma tende a desaparecer com a ativação do IC. A grande eficácia do Implante na maioria dos relatos é tão significativa que existem alguns casos, raros, de indicação do IC só por causa do zumbido que o paciente apresenta.

Paula Pfeifer, autora do blog “Crônicas da Surdez” e de um livro de mesmo nome, nos conta sobre como ficou seu tinnitus após a cirurgia de IC. “Como eu disse no livro, minha primeira memória com o zumbido eu devia ter uns 5 anos, dizendo “mãe, tem um apito no meu ouvido”. A vida toda tive zumbido 24hs por dia. Após a cirurgia, o zumbido do lado operado piorou muito, parecia uma serra elétrica, quase enlouqueci. Mas, depois da ativação, isso foi acabando, até quase cessar por completo o zumbido. Após a ativação do IC no ouvido direito, meu zumbido diminuiu uns 80% e tem dias que ele desaparece, porém, apenas do lado direito, porque no esquerdo ele continua a todo vapor”, relata Paula.

Sobre as características do zumbido em pacientes com deficiência auditiva, segundo alguns estudos, perdas de origem condutiva geram zumbidos de tonalidade mais grave (sons de cachoeiras e ondas do mar), ao passo que perdas neurossensoriais geram zumbidos de tonalidade mais aguda (sons de cigarra, apito, grilo). As perdas auditivas mistas apresentam um comportamento mais variado, podendo gerar zumbidos graves ou agudos. Os zumbidos mais severos foram associados à perda auditiva em tons agudos, porém, não há relação entre o grau de severidade da perda auditiva e o nível de incômodo sentido pelo paciente, de modo que o sistema límbico (emocional) do cérebro está muito mais envolvido com a gravidade do tinnitus do que o próprio sistema auditivo. Os cientistas afirmam que emoções negativas, como o estresse, por exemplo, também podem agravar a percepção do zumbido.

Outro sintoma que vem sendo encontrado em quem possui tinnitus é a hiperacusia. A hiperacusia é uma redução da tolerância aos sons ambientais, uma sensibilidade exagerada aos ruídos. Indivíduos com queixa de zumbido e hiperacusia costumam apresentar tinnitus de grau leve, tom agudo e bilateral.

Orientações para diminuir seu tinnitus

No site da Biosom, há uma lista com algumas dicas de atitudes simples que podem ser tomadas para ajudar a diminuir a ocorrência do zumbido em seus ouvidos.

 

* Fonte das duas últimas imagens: arquivos pessoais das entrevistadas.

 

Não perca a segunda parte desta reportagem (aqui), com curiosidades sobre o famoso tinnitus e um teste simples para você descobrir qual é o grau de severidade do seu zumbido!

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.