Ano passado, a ADAP publicou uma matéria sobre o desempenho escolar de crianças usuárias de Implante Coclear, contendo experiências e dicas de pais e especialistas para melhor lidar com os alunos com deficiência auditiva. Por mais que tais indicações sejam seguidas, não há como garantir uma perfeita adaptação em todos os casos de estudantes com surdez, porque aquelas são orientações gerais, e cada indivíduo é único e possui suas próprias necessidades em relação à sua deficiência. Portanto, para um melhor resultado, tais orientações devem ser analisadas junto ao contexto escolar de cada aluno, respeitando suas particularidades e procurando adaptar as soluções de acordo com a vivência da criança com deficiência auditiva.

Este é um processo complexo, e para se chegar ao resultado final esperado, muitas vezes é necessário um jogo de acertos e erros, buscando experimentar quais as melhores táticas para a adaptação da criança na escola. As tentativas que funcionaram para um aluno podem não funcionar para outro, por isso, deve-se ficar atento para as reclamações dos pequenos e das demais pessoas que convivem com eles em sala de aula, para se ter uma noção de como anda o processo de adaptação escolar em sua totalidade.

Com o objetivo de mostrar como cada estratégia de adaptação (ou a ausência dela) em sala de aula pode gerar resultados diferentes de acordo com as vivências de cada criança, convidamos pessoas com deficiência auditiva e alguns pais de alunos para contarem sobre suas experiências com o período escolar. Juntamente com a participação da fonoaudióloga Larissa Coutinho Fonseca, associamos os relatos às principais orientações que geralmente são passadas pelos profissionais da saúde para se lidar com a deficiência auditiva nas escolas, construindo assim um panorama da realidade brasileira da surdez em sala de aula, que pode ser conferido a seguir.

A escolha do método de reabilitação auditiva

Uma das primeiras questões que surgem aos pais quando descobrem uma deficiência auditiva severa ou profunda no seu filho diz respeito à que tipo de método de reabilitação escolher: oralista, sinalizado (LIBRAS) ou o bilinguismo. A escolha, muitas vezes, vai depender da flexibilidade de adaptação da criança, da família e do meio em que convivem. Há toda uma polêmica em torno desta questão, com a polarização do Oralismo e da LIBRAS como se fossem polos antagônicos e com dualidades insuperáveis.

A fonoaudióloga Larissa, assim como alguns outros profissionais da atualidade, defende uma integração das técnicas, dando uma opção de escolha à própria criança, oferecendo a ela conhecimentos para que tenha oportunidade de perceber qual será o método em que melhor se adaptará socialmente. “Sou uma fono que sabe LIBRAS. E, na minha prática clínica, ela sempre me ajudou. A Língua de Sinais não impede o aprendizado da língua oral. Pelo contrário, favorece para que ela seja adquirida mais rapidamente”, explica Larissa.

Tentar impor à criança um ou outro método, sem verificar se ele é bem aceito por ela e se supre as suas necessidades de socialização, pode ocasionar uma má adaptação da criança ao seu ambiente social, originando sentimentos de isolamento e até mesmo depressão. Aline Cordeiro, que possui surdez profunda desde o nascimento, conseguiu ser perfeitamente oralizada apenas com os AASI e leitura labial, só recebendo seu IC aos 21 anos. Apesar de todas as suas adaptações na escola, como sentar perto do professor e ler lábios, Aline diz que o sentimento de exclusão sempre a acompanhou, pois não conseguia participar de conversas em grupos com os colegas. Então, com 15 anos, decidiu aprender LIBRAS em uma escola para surdos, e esse idioma a ajudou muito em sua socialização. “Eu prefiro conversar em LIBRAS quando estou em grupo. A conversa flui naturalmente, você capta tudo. Já numa conversa com mais pessoas ouvintes, se torna um pouco mais difícil acompanhar tudo apenas com leitura labial”.

Élen Muzy, que adquiriu surdez profunda aos 11 anos, em decorrência de uma meningite, e só foi implantada aos 18, preferiu continuar apenas na oralidade durante toda a sua vida escolar, por só ter contato com ouvintes. “Poucas pessoas sabem LIBRAS. Eu me relacionaria apenas com eles. Naquela época, década de 90, era pior. Meus pais e as pessoas que conviviam comigo iriam ter que aprender também. E aqui onde moro não conhecia ninguém que sabia”.

Para as crianças que recebem o Implante Coclear antes de iniciarem a sua alfabetização, a adaptação à oralidade tende a ser mais fácil. Andréa Sobral, mãe de Maryana (foto), de 5 anos e implantada bilateralmente, conta sobre o comportamento social de sua filha. “Não vejo dificuldade alguma na socialização da Maryana, ela é uma criança muito comunicativa, e isso ajuda muito no dia a dia dela. Na escola, é cercada de amigos e amigas, quando vou buscá-la no colégio sempre está com alguma criança brincando. A professora conta que ela é muito participativa, e está na fase dos porquês, deixa todo mundo louco com tantas perguntas”.

O possível isolamento das crianças com surdez

A criação e a personalidade da criança, e como esta reage às limitações da surdez, também contam muito no seu desenvolvimento e socialização. Marcelo de Paula, que adquiriu surdez profunda aos 8 anos e só recebeu o IC aos 25, diz que sempre foi comunicativo na escola, e que sua deficiência auditiva nunca provocou seu isolamento. A psicóloga Raquel Cassoli explica as variáveis envolvidas nesse processo. “Existem crianças que são mais tímidas e retraídas, e isto é parte da personalidade delas. É preciso lembrar que a forma como socializamos faz parte do repertório de habilidades sociais desenvolvidos entre nossos pares, família e escola, que é valorizado pela nossa cultura. A criança com tendência ao isolamento tem que ser cuidadosamente observada, algumas se isolam por não se sentirem parte do grupo e para “se machucarem menos” evitam determinadas situações e buscam contato em situações mais seguras”, afirma.

Portanto, uma das recomendações mais passadas aos pais e professores de crianças com deficiência auditiva é que eles busquem estimular o contato social dos pequenos. A fono Larissa orienta principalmente aos professores: “Verifique se o aluno procura ou é procurado por seus colegas para brincar, conversar, lanchar, se ele está envolvido em relacionamentos mais extensos de amizade, dentro ou fora da sala de aula. É imprescindível que todos os colegas e os professores dos alunos com perda auditiva conversem normalmente. O professor tem um papel muito importante no acesso, na construção e no aprimoramento da linguagem oral do aluno, portanto, converse, conte histórias, pergunte, explore ao máximo o uso da língua oral na sala de aula e lembre-se de garantir a compreensão do que é dito. Exemplifique, mostre ao aluno sobre o que você ou os outros alunos estão falando. Com isso, o aluno com perda auditiva se sentirá seguro para se expor frente a todos na escola”.

Mas a realidade do contato social em sala de aula costuma ser outra, principalmente para deficientes auditivos que não usam Implante Coclear. Eu mesma, Ana Raquel, tenho perda auditiva de grau moderado e dificilmente consigo conversar durante as aulas da faculdade. A prática da leitura labial limita drasticamente o número de interlocutores de uma conversa que conseguimos acompanhar. Toda nossa atenção, visual e auditiva, tem que se dirigir a quem está falando, então frequentemente somos obrigados a decidir em quem focar, nos colegas ou no professor. No meu caso, na maioria das vezes minhas interações sociais nesse ambiente são sacrificadas em nome do aprendizado do curso.

Por isso, grande parte dos estudantes com surdez busca refúgio na leitura ao invés de participar de rodas de conversas em grupos. Silvana Neves dos Santos, que só recebeu o IC na vida adulta, conta sobre como viveu seu período escolar. “Fui para a escola já para alfabetização, aprendi a ler rapidamente. Sempre fui muito tímida e à parte do que acontecia na sala de aula. A primeira lembrança que tenho foi de tentar tirar uma dúvida com a professora e todos riram na sala. Provavelmente a pergunta não tinha a ver com o assunto. Na hora do intervalo, eu sempre ia para a biblioteca ler. Sempre fui muito reservada, sabia que havia algo errado, mas para mim era normal não entender direito o que falavam. Mas até hoje não sou muito sociável. Como li outro dia, a surdez nos afasta das pessoas”.

Rodrigo Andrade Rabelo também nos conta sobre sua vida escolar e compara seu comportamento de antes e depois de receber um IC. “Eu perdi a audição quando estava na segunda série do ensino fundamental. Nos anos seguintes, fiz uso de aparelhos auditivos convencionais e tentava me virar através da leitura labial, algo que não tive dificuldades de aprender. Em relação as minhas dinâmicas com os colegas, eu era muito retraído, fechado, acho que alguém que me conheceu naquela época pode até se surpreender ao saber que eu me tornei jornalista, publicitário e ainda arrisco umas aulas de canto nas horas vagas. Eu quase não falava com ninguém, não era estimulado pelos professores a interagir com os coleguinhas, basicamente só tive dois amigos na época. Quando entrei na faculdade, eu já tinha feito o Implante Coclear, na mesma época em que comecei a me preparar para as maratonas de vestibulares. E o que noto é uma mudança de mão dupla: minha perspectiva em relação ao mundo que me cercava, tinha um maior domínio dos sons, uma maior compreensão de estar situado em um mundo movido à comunicação, a sons, uma maior autoestima, e também notei uma maior abertura por parte dos meus professores universitários e dos meus colegas”.

Escolhendo a escola

Outra recomendação que os pais de crianças com deficiência auditiva costumam ouvir é que eles deveriam matricular seus filhos em escolas pequenas, com menor número de alunos por classe, para que não haja muito barulho durante as aulas e as crianças tenham uma maior atenção por parte dos professores. Porém, deve-se observar que não adianta nada a escola ser pequena, mas também não ser preparada para lidar com a questão da surdez. Mariana Candal, mãe da Joana, usuária de IC e com quase 4 anos de idade, comenta sobre a escola de sua filha.

“Como a Joana tem um irmão mais velho e ouvinte, e tivemos a experiência dele ir cedo para creche, já tínhamos percebido que uma boa escola faz muita diferença no desenvolvimento de uma criança, surda ou não. Sendo assim, buscamos o melhor desde o começo. A primeira creche era pequena em estrutura, e ela ainda ficava no berçário. Ficou dos 10 meses até 1 ano e meio. Neste período, notamos grandes avanços, as primeiras palavras, a primeira vez que acompanhou uma musiquinha e o reconhecimento de vários comandos. Mesmo assim queríamos mais, então em 2013 matriculamos ela na escola do irmão. Uma escola grande fisicamente, com muitas turmas, e turmas maiores, mas reconhecidamente de alta qualidade. Em 2013 e 2014, foram 18 alunos por turma. Este ano são 24 crianças. A minha opinião é que a qualidade pedagógica compensa e muito o fato de ter uma turma maior. Como já estávamos satisfeitos com o trabalho da escola em relação ao nosso filho mais velho (ouvinte), apostamos nela para a Joana também. Joana sempre se adaptou muito bem, e a escola também sempre foi muito receptiva a ela”, relata Mariana.

Muitas vezes, pela falta de integração do aluno com deficiência auditiva na escola, é necessário buscar auxílio fora dela, como o recurso de aulas particulares citado por Élen Muzy. Ela relata que a surdez trouxe grandes transtornos à sua vida escolar, antes de receber o IC. “Eu sempre fui uma boa aluna na escola, só tinha notas boas. De ótima aluna, fui para péssima, após a surdez. Eu tinha que andar com um caderno na mão, porque não entendia o que falavam comigo. Eu ia à escola à toa na verdade, porque não entendia ninguém. Não queria ir, chorava muito. Eram as aulas particulares que me salvavam”.

A criança com deficiência auditiva e sua inclusão escolar

A inclusão ainda é precária em grande parte das escolas brasileiras, e isto se reflete tanto no aprendizado quanto na interação social do aluno. Outro obstáculo que muitas vezes aparece na trajetória escolar é o pesadelo do Bullying. Eu, Ana Raquel, já tive que desviar de coleguinhas do ensino fundamental que queriam jogar água propositalmente em meus AASI. Melissa Peres (foto), que recebeu um IC aos 13 anos, também relata a discriminação em sua vida escolar. “Quando eu fiz a formatura do prézinho pra embarcar no ensino fundamental é que os problemas começaram. Antes, éramos todos inocentes, não havia discriminação por parte das crianças. A partir do momento em que fui para o fundamental, as pessoas começaram a entender que eu tinha um problema auditivo, mas não entendiam inteiramente ou então não queriam entender”.

Outra indicação frequentemente passada aos alunos com deficiência auditiva é para que eles sentem sempre nas carteiras da frente da sala, próximo ao professor. Aline Cordeiro conta que, quando usava somente AASI, já tentou sentar nas carteiras do fundo, mas a experiência era péssima para o seu aprendizado. “Teve época que sentei no fundo, meio distante dos professores, para ficar com amigos. Minhas aulas eram basicamente ficar sem entender nada, e mandar bilhetinhos pros outros”.

Novamente, os alunos com surdez acabam tendo que optar por entre ouvir o professor ou acompanhar a conversa dos colegas. Eu, por exemplo, percebo que a maioria dos alunos ouvintes da escola e, principalmente, da faculdade, não gostam de sentar nas primeiras carteiras da sala e, como sempre sento lá, acabo ficando meio isolada do restante da classe. No caso de crianças pequenas, muitas vezes a vontade delas de estar com os amiguinhos não é respeitada. Renata Orsi, que recebeu um IC somente na idade adulta, ilustra essa situação. “Quando eu perdi minha audição, já estava na escola. Eu sempre preferi sentar no meio da sala, assim ficava de frente para a lousa e também acompanhava melhor caso houvesse interação com os alunos. Mas os professores sempre me colocavam na primeira carteira”, conta.

O papel dos professores das crianças com deficiência auditiva

A prática da leitura labial é outra recomendação às crianças com surdez. Nesse sentido, há professores que são compreensivos e que fazem de tudo para facilitar o aprendizado do aluno. Carla Bueno, que atualmente está em vias de adquirir um IC, relata um caso que lhe aconteceu quando ela era pequena. “Os professores sempre me ajudaram, só apenas ficando de frente para mim. Porém, na 5º série, quando tive o meu primeiro contato com o inglês, o professor tinha barba e um bigode muito comprido que tapava a boca. Eu ficava me esquivando na carteira para tentar ler a boca e não entendia nada. Cheguei em casa e contei a meus pais, que sugeriram para que eu pedisse ao professor para aparar o bigode. Eu fiquei com vergonha de pedir e meus pais foram conversar com ele. Na próxima aula, o professor estava com o bigode aparado e pediu a minha opinião sobre o que havia achado”.

Porém, nem sempre os professores se lembram das especificidades do aluno com surdez. Renata Orsi comenta sobre uma de suas aulas na escola. “Tive alguns problemas com professores, especialmente um de português, que insistia em andar pela sala a aula toda. Falei com ele diversas vezes, até que passei a avisá-lo todas as aulas que eu estava lá. Parece que ele sempre esquecia”.

E há ainda casos piores, de mestres que sequer acreditam na deficiência auditiva do aluno. Rodrigo Andrade Rabelo já passou por essas experiências. “Em duas das três escolas em que estudei até o final do ensino médio, notei uma falta de preparo ou até mesmo má vontade dos professores. Na primeira escola, tive uma professora que não gostava que eu fizesse leitura labial. Na segunda escola, havia outra professora que, por algum motivo, cismava que eu não era surdo, apesar do meu aparelho auditivo. E ela sempre procurava fazer testes para mostrar que estava certa. Esses testes, geralmente, envolviam a leitura labial. Já teve vezes que ela pediu, na classe, para eu desligar o aparelho, pois ia mostrar como eu ouvia sim. Acho que, na época, ainda não havia um preparo dos professores no sentido de receberem alunos com algum tipo de limitação, alguma deficiência, além da surdez trazer noções preconcebidas, errôneas”, explica.

Outros recursos auditivos

O ruído de fundo em sala de aula é um dos fatores que mais atrapalham no desempenho do aluno com deficiência auditiva. Alguns conseguem se sair bem nesses ambientes apenas com o uso de AASI ou de Implantes Cocleares, como é o caso de Joana. Sua mãe, Mariana Candal, explica: “Todas as escolas são bem barulhentas, mas surpreendentemente a Joana lida muito bem com ambientes barulhentos, mantendo um reconhecimento e discriminação sonora muito bons. Pode parecer que tudo deu certo, mas é necessário sempre lembrar às profissionais que lidam com ela sobre a surdez. Sim, elas esquecem. E eu peço sempre, mantenham ela perto de vocês nas aulas, falem olhando de frente (principalmente se tiver muito ruído), verifiquem sempre se ela entendeu”.

Recursos adicionais podem ser utilizados para ajudar o estudante com surdez a melhorar sua compreensão em sala de aula, como um intérprete de LIBRAS ou o uso do Sistema FM ou Sistema Roger. Marcelo de Paula relata sobre como é benéfico ter à sua disposição um intérprete mais o Sistema Roger nas aulas da faculdade. “Antes de usar o Roger, eu forçava muito mais a atenção para entender o professor. O intérprete de LIBRAS me auxilia quando os alunos falam ou quando eu não entendo o mestre. Eu sempre sentei próximo do professor, mas hoje, com o Roger, minha compreensão é quase perfeita e posso sentar em qualquer lugar da classe que continuo ouvindo os professores, sem nenhum ruído. Quanto a ouvir os alunos, isso continua sendo um grande obstáculo, e nesse caso tenho o auxilio do intérprete de LIBRAS”.

Usuários do Sistema FM costumam relatar que o aparelho é muito eficiente na focalização da voz do professor, mas quando acontecem dinâmicas de grupos e debates em sala de aula, continua sendo difícil a compreensão de tudo o que é dito por várias vozes. Aline Cordeiro usou o FM na faculdade, e confirma esse fato. “O Sistema FM me ajudava muito, mas cortava a minha conversa com os amigos do lado. Quando o professor perguntava para um aluno e o aluno que dava a resposta, eu não conseguia entender. De que adianta ouvir as questões e não as respostas?”, conclui.

 

* Para conhecer outras experiências de jovens com deficiência auditiva e usuários de Implante Coclear, você pode conferir a página “Os Jovens e o Implante Coclear”, no Facebook.

* Créditos das fotos: reprodução (primeira imagem) e arquivos pessoais dos entrevistados (demais fotos).

 

Por Ana Raquel Périco Mangili.