Com a incorporação pelo SUS, em junho de 2013, do Sistema FM na Tabela de Procedimentos, Medicamentos, Órteses, Próteses e Materiais Especiais fornecidos às pessoas com deficiência auditivas usuárias de Aparelhos Auditivos, Implantes Cocleares ou Sistema Baha, crianças e jovens em idade escolar passaram a ter a oportunidade de usufruir de mais um recurso tecnológico que auxilia no uso da audição para a aquisição de conhecimentos e na socialização ocorridas no ambiente escolar. Porém, a total igualdade de condições que envolvem situações auditivas em uma sala de aula, em comparação às crianças ouvintes, ainda está muito distante de se tornar realidade, principalmente para as crianças com perdas auditivas do tipo severa ou profunda, usuárias de Implante Coclear. 

Em uma pesquisa realizada por Ana Beatriz Sacomano Montassier Pinheiro e outras três pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP), publicada em 2012, em que se avaliou o desempenho escolar de uma amostra de 32 crianças usuárias de IC, na faixa etária dos nove aos doze anos, concluiu-se que 74% desses usuários de Implante Coclear (24 crianças) tiveram um desempenho escolar abaixo do esperado para a sua idade. E outro estudo citado pelas pesquisadoras também demonstrou que 62,5% dos pais de crianças implantadas entrevistados na pesquisa relataram que seus filhos apresentam dificuldades na escola. Dessa forma, evidenciou-se mais do que nunca a insuficiência das políticas públicas de educação e a fraca inclusão escolar das crianças implantadas.

Vale lembrar que, apesar do Implante Coclear promover a audição de pessoas com perdas auditivas do tipo severa ou profunda, este aparelho ainda não exerce a função de total substitutivo do ouvido humano. A audição é um dos órgãos mais complexos da nossa espécie, de forma que ainda não se alcançou, pela tecnologia, a capacidade de reproduzi-la integralmente. De forma natural, o próprio sistema auditivo humano apresenta oscilações em seu desempenho ao longo da vida. Nas pessoas que já possuem alguma perda auditiva, essa oscilação traz consequências de forma ainda mais acentuadas. Sendo assim, usuários de qualquer tipo de equipamentos auditivos (AASI, IC ou Baha) ainda possuem alguma dificuldade para ouvir e compreender os sons, mesmo utilizando os aparelhos.

Nas crianças com perdas auditivas pré-linguais (isto é, ocasionadas antes da aquisição da linguagem oral) que necessitam de um Implante Coclear, faz-se necessário todo um acompanhamento médico e fonoaudiológico, antes e depois da cirurgia, para reabilitar e auxiliar a criança na aquisição do idioma materno. Segundo a fonoaudióloga da ADAP Marcella Giust, o período ideal para realizar o Implante Coclear é até os três anos de idade, pois esta é uma fase crítica para o desenvolvimento da linguagem no cérebro humano. Claro que há fatores variáveis nesse processo, como o grau da perda, os estímulos à criança e a intensidade da terapia fonoaudiológica. Mas, quanto antes se realizar o implante, melhores e mais rápidos serão os resultados, pois o desenvolvimento da fluência na língua materna se torna a base de todo o aprendizado futuro da criança, e seu possível comprometimento atingirá as demais áreas da vida do indivíduo.

A influência do ambiente familiar e o ingresso na vida escolar

Na reabilitação da criança implantada, a família também desempenha um papel fundamental. É no ambiente silencioso de sua casa e na sua interação direta com os familiares que o indivíduo aprenderá a identificar os primeiros sons e palavras, e no caso da criança possuir uma deficiência auditiva, cabe aos pais redobrarem os estímulos e o acesso às fontes sonoras para o seu melhor aproveitamento e aprendizado. Dessa forma, com o apoio da família e do profissional fonoaudiólogo, a criança estará mais apta a enfrentar um ambiente mais dinâmico e desafiador para o seu sentido auditivo: a escola.

Se até então, no ambiente familiar, as situações sonoras as quais as crianças eram expostas podiam ser controladas em favor de um melhor aproveitamento pelo indivíduo deficiente auditivo, no ambiente escolar esse controle se reduz drasticamente. A criança passará a conviver com diversas pessoas e múltiplas fontes sonoras, que muitas vezes sobrepõem-se umas às outras e se distanciam do seu interlocutor, o que ocasionará as principais dificuldades na compreensão dos sons pela criança com deficiência auditiva.

Sendo assim, uma dúvida comum a todos os pais dessas crianças é sobre que tipo de escola é mais adequada aos seus filhos. Segundo Marcella, a grande maioria das crianças implantadas é orientada a frequentar escolas comuns. Isso porque, se o objetivo do Implante é desenvolver as capacidades auditivas da criança, ela deve ser exposta, desde cedo, a ambientes com o maior número de experiências sonoras, para possibilitar o desenvolvimento da audição, da fala e da linguagem oral.

Mas, se a simples inserção em escolas regulares está ocasionando um grande déficit no aprendizado das crianças implantadas, como demonstraram as pesquisas citadas acima, o que está faltando nesse cenário? A real inclusão da criança deficiente auditiva. A Constituição Brasileira garante a oferta de educação igualitária a todos os seus cidadãos. É dever da sociedade se reajustar de modo a se tornar acolhedora e justa para todos. Maryana Sobral Delasta durante atividades escolares. Foto: arquivo pessoal.Porém, como isso dificilmente ocorre de forma espontânea na realidade, cabe aos pais e profissionais da saúde orientar os professores e diretores escolares sobre as especificidades da criança e coordenar, junto com eles, esforços no sentido de complementar e auxiliar o aprendizado que se dá por meio do sistema auditivo dos pequenos.

Para começar, a seleção da escola que mais se adeque às necessidades da criança implantada é um item fundamental. A preferência deve ser por escolas que trabalhem com as políticas da educação inclusiva. Muitas mães acabam se deparando com barreiras nesse caso, as quais não deveriam existir se se considerassem a igualdade de todos perante a lei. Foi o caso de Andréa Sobral, mãe de Maryana Sobral Delasta, implantada que hoje está com quatro anos de idade. “Quando fui atrás de um berçário, fui a vários lugares, e para ser sincera, os olhares não eram muito amigáveis quando eu falava que ela [Maryana] era deficiente auditiva. Depois de muita busca, encontrei um local que me acolheu, e foi para lá que a Maryana foi”, relata.

Ana Júlia Kemer em sua escola em Florianópolis/SC. Foto: arquivo pessoal.Outro item que deve ser levado em conta é o tamanho da escola. Quanto menor o número de alunos por sala, menos ruído para o deficiente auditivo e mais possibilidades de dedicação do professor para cada aluno. Essas características podem levar alguns pais a deduzirem que as escolas particulares podem ser a melhor escolha, mas nem sempre isso é a regra, como aconteceu no caso de Ana Júlia Kemer, de oito anos de idade, implantada que frequenta uma escola pública de Florianópolis/SC. Sua mãe, Geiciane Lemos, comenta sobre o local: “É uma escola que trabalha a inclusão social das crianças com deficiência, tem toda uma estrutura para receber as crianças de acordo com a deficiência delas, por exemplo, nos corredores tem o alfabeto em Libras e em Braile. A escola também oferece, no contra turno escolar, aulas de Libras e Português para a Ana Júlia”.

Essas aulas no contra turno escolar, citadas por Geiciane, fazem parte do que se chama de “serviços de apoio educacional especializado”, previstos nas Diretrizes Nacionais para a Educação Especial como uma opção de auxílio na aprendizagem das crianças. Aqui, o aluno poderá contar com atividades focadas nas suas dificuldades auditivas e de linguagem, junto com outros recursos tecnológicos, como vídeos legendados, que facilitem o seu aprendizado.

A atitude do professor em sala de aula é outro fator que deve ser levado em consideração. Sentar o aluno com deficiência auditiva nas carteiras da frente da sala, procurar esclarecer todas as dúvidas da criança, facilitar a leitura labial, adaptar as avaliações de português quando necessário e fornecer conteúdo alternativo ao material que estiver disponível apenas em áudio, se necessário, são algumas das atitudes que facilitam, e muito, o aprendizado da criança deficiente auditiva (ver as orientações completas ao final da matéria). O uso do Sistema FM pelo professor também é um recurso a mais que pode ser utilizado na dinâmica escolar.

Universidade, um novo desafio 

E quando os pequenos crescem e decidem fazer um curso superior? A entrada na Universidade pode representar outro desafio aos usuários de Implante Coclear. Pelo fato do ambiente universitário trazer novos métodos de aprendizagem, como palestras e aulas com dinâmicas em grupo, além de ser um local geralmente maior do que as escolas regulares, o usuário de IC pode encontrar maiores dificuldades a serem vencidas nesse meio, não só na aprendizagem, mas também na socialização 

Foi o que aconteceu com Aline Vendrame Cordeiro, implantada que se formou ano passado no curso de Letras na Faculdade Anhanguera, de São Caetano do Sul/SP. Ela relata suas experiências e os maiores desafios: “Na faculdade, eu senti muita dificuldade. Acompanhava bem o professor, mas não conseguia compreender o que falavam atrás de mim. A sala era barulhenta, eu tinha dificuldades de conversar até com as minhas amigas. Trabalho em grupo eu não acompanhava, estava sempre fora de sintonia, pois, mesmo ouvindo, ainda sou surda, não dá para ouvir cem por cento com o IC. O [Sistema] FM me ajudava muito, mas cortava a minha conversa com os amigos do lado. Eu não podia interagir com ninguém. Meus últimos semestres foram depressivos”, afirma Aline.

Aline Vendrame Cordeiro na Faculdade Anhanguera, de São Caetano do Sul/SP. Foto: arquivo pessoal.A dificuldade relatada no uso do Sistema FM por Aline se deve ao fato de que este equipamento é mais eficiente ao amplificar a voz de apenas uma fonte sonora por vez, nesse caso, o professor. As dinâmicas de grupo na sala de aula ainda apresentarão dificuldades para alguns estudantes deficientes auditivos, pois se tratam de várias vozes a serem distinguidas, o que exige um imenso esforço auditivo, mesmo que elas sejam amplificadas pelo Sistema FM.

Já para outros implantados, a entrada na Universidade pode ser uma experiência muito positiva, como foi o caso de Rodrigo Andrade Rabelo. “Sem dúvidas o IC me ajudou bastante a me integrar mais ao mundo, até mesmo ajudou a definir o meu rumo profissional. Digo isso porque, como antes do IC a minha audição era muito ruim, para não falar inexistente, eu também era muito inseguro, sempre estudei em escolas convencionais, algumas com professores pouco preparados, e tinha medo de falar em público, medo de falar com outras pessoas, enfim, era tímido mesmo, ficava mais mergulhado nos livros e escritos do que nas interações sociais. Após o IC, houve um ganho gradual e significativo nas minhas percepções auditivas, e esse ganho faz com que eu começasse a me sentir mais seguro para interagir com os outros, conversar com as pessoas, e acabei seguindo pelo caminho da comunicação, algo que para aquele jovem tímido seria inimaginável”, relata o estudante do último ano de Jornalismo na PUC de Campinas.

Dicas para ajudar no desempenho escolar das crianças implantadas

Seja no ensino fundamental, médio ou universitário, o desempenho do estudante com deficiência auditiva e usuário de Implante Coclear (ou também de AASI e Baha) pode ser mais bem aproveitado com algumas dicas e atitudes, tanto para o professor quanto para o aluno. Enumeramos as principais logo abaixo, parcialmente extraídas da cartilha “Tools for Schools”, produzida pela Advanced Bionics (AB). Aos pais caberá repassar as orientações aos professores e manter um acompanhamento da vida escolar e das atividades de seu filho. 

Aos alunos com deficiência auditiva:

  1. Sente-se próximo do professor, de preferência nas primeiras carteiras da sala e distante de portas e janelas, para não ser distraído por ruídos externos à classe.

  2. Se for aluno do ensino fundamental ou médio, requisite gratuitamente o seu Sistema FM pelo SUS, através da Secretaria de Educação da sua cidade. Em sala de aula, peça que seu professor utilize esse equipamento durante as aulas. Em exposição de trabalhos em grupo, oriente seus colegas a também utilizar o seu Sistema FM.

  3. Se tiver prática na leitura labial, não hesite em utilizá-la quando achar necessário.

Aos Professores e Mestres:

  1. Ministre suas aulas de forma natural. Não fale muito rápido nem muito lento. Também não há necessidade de gritar para se fazer ouvir pelo aluno implantado.

  2. Boa parte dos alunos com deficiência auditiva faz leitura labial. Portanto, facilite que eles vejam o seu rosto e boca. Evite falar de costas ou andar muito pela classe.

  3. De preferência, mantenha a porta da sala de aula fechada, para evitar ruídos externos. Também evite arrastar carteiras ou falar junto com outros barulhos.

  4. Quando for falar com o estudante implantado unilateralmente, dirija-se a ele sempre do lado implantado.

  5. Procure entender e esclarecer as dúvidas do aluno. Tenha paciência se tiver que repetir a ele algum conteúdo já dito anteriormente, pois ele pode não ter ouvido mesmo que tenha prestado atenção à aula.

  6. Quando quiser destacar alguma palavra, frase ou data, escreva-a na lousa, pois alunos com deficiência auditiva assimilam melhor o conteúdo por meios visuais.

  7. Em dinâmicas de grupo, sintetize o que foi dito pelos colegas que estiverem sentados longe do aluno com deficiência auditiva. Incentive também a interação do implantado com os seus colegas.

  8. Utilize o Sistema FM durante as aulas. Esse é um direito do estudante com deficiência auditiva.

  9. Forneça materiais alternativos ao aluno quando for utilizar recursos sonoros em sala, como áudios e vídeos (aos quais se podem acrescentar legendas ou se recomendar a leitura do conteúdo por escrito em outra fonte).

  10. Adapte ou substitua atividades que exijam muito do sentido auditivo do estudante, como prova oral ou análise de áudios, por exemplo.

  11. Se a criança frequentar também um serviço de apoio educacional especializado, mantenha contato com o professor desse serviço para acompanhar o progresso do aluno nas áreas em que ele possua maior dificuldade.

     

     * Créditos das fotos: arquivo pessoal dos entrevistados.

     

    Por Ana Raquel Périco Mangili.

 

Share