COLUNA ADAP 


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COMO PARTICIPAR

Na edição de hoje, entrevistamos um jovem de 21 anos, usuário de Implante Coclear, que é também estudante de jornalismo e apreciador de uma boa música. Seu nome é Thalison da Silva Felisberto, e ele mora em São João da Boa Vista (a cerca de 230 km da capital de SP). Confira a seguir a conversa com Thalison.

1) Quando e porquê você perdeu a audição? Conte um pouco sobre esse momento, o que você sentiu, como lidou com a perda...

Perdi a audição gradativamente após um período de pneumonia dupla, quando tinha de 2 para 3 anos de idade. Me lembro vagamente do hospital quando fiquei 15 dias internado. O que causou a perda auditiva não foi a pneumonia em si, e sim os medicamentos fortes para combater a pneumonia. O médico disse a minha mãe: "Ou morre de pneumonia ou toma os medicamentos que é muito forte e poderá deixar sequelas", e minha mãe, claro, optou pela segunda alternativa. Só que a sequela demorou tanto para aparecer que minha mãe achou que nem teria mais. Aí, um certo dia, entre 4 e 5 anos, eu estava brincando na água suja que desce a rua na beira da calçada, e minha mãe chamou a minha atenção: "Thalison, sai daí”. Visto que não ouvi, ela achou que era teimosia: "Thalison, sai daí senão vou te bater". Quando achou que eu estava desobedecendo, ela avançou em mim mostrando o chinelo, e eu estava assustado. Foi aí que minha mãe resolveu me levar ao medico.

O primeiro médico disse que era normal, teimosia de criança que só ouve quando quer. Por via das dúvidas, minha mãe procurou outro médico e fez os exames necessários. E aí foi diagnosticada a minha surdez. A princípio, nesta época era de 30% de perda auditiva. E comecei a usar aparelho em julho de 2000, respectivamente aos 7 anos. Quando o pessoal estava na primeira série, eu estava no pré. Isso porque minha mãe optou em esperar meu aparelho chegar para eu poder entrar na primeira série. Com o tempo, eu tive uma vida escolar normal, mas com limitações, claro. Essa espera que minha mãe tinha optado foi fundamental para o desenvolvimento da escrita e oralidade. Eu, às vezes, nem me sentia diferente. Eu só sentia dificuldades. Pelo menos, até a 5ª série, sempre sentei na primeira fileira. As professoras nunca deixavam sentar mais atrás. Quando eu mudei de escola, da 6ª série em diante, pude escolher o lugar para sentar. E eu sempre optava pelo centro da sala.

2) Que aspectos da sua vida mudou após você ensurdecer? Como você lidou com isso?

A minha vida social era limitada. Tinha apenas poucos amigos da rua onde morava. Raramente saia com colegas de escola. Depois do implante, eu me sentia mais à vontade para conversar. Como se a audição proporcionada me libertasse da timidez.

3) Como você descobriu o Implante Coclear? O que pensou, num primeiro momento, sobre essa tecnologia? Como tomou a decisão de se implantar?

Quando estive em Divinolândia para exames periódicos da audição, eu fiz a audiometria. Neste mesmo dia, o exame apontou dificuldade nos reconhecimentos das palavras. Depois, a médica (que apenas recordo o primeiro nome - Ângela) chamou e me perguntou se queria operar para ouvir. Olhei para minha mãe, vi o sorriso dela e enxerguei uma possibilidade de melhorar minha vida. Minha resposta foi imediata: Sim! Depois ela me explicou superficialmente o que era o implante. Comecei a pesquisar e achava que não tinha nada visivelmente na parte externa do aparelho. A partir daí, ela me encaminhou para a Unicamp e fiquei cerca de um ano entre idas e vindas para realização de exames e conversas com os profissionais até a operação.

4) Quando e como foi a sua cirurgia? E a ativação? E sua adaptação? Conte um pouco sobre esses momentos.

A cirurgia foi em 12/05/2010 e a ativação foi em 03/08/2010. A minha adaptação, por incrível que pareça, foi rápida. Tive que fazer fono para corrigir as pronuncias das palavras que eu falava erradas e trabalhar também a dicção. Me lembro que, no primeiro dia que eu ativei, fiquei assustado com o barulho dos saltos de médicas e enfermeiras e outras pessoas que estavam no hospital. A fono pediu para eu dar uma volta pela Unicamp e fiquei maravilhado de poder ouvir tudo tão detalhadamente. Cada som era uma novidade no quesito de detalhe. Antes eu ouvia, mas não tão detalhadamente como ouço hoje com o implante. No mesmo dia, fui escrever um negócio no papel com o lápis e ouvi o risco dele no papel, e foi o som que finalmente fez com que a ficha caísse: "Eu estava ouvindo!". Quando retornei a escola, eu conseguia ouvir as colegas falando baixo atrás de mim, quando elas perceberam que eu estava ouvindo, ficaram sem graça, pois estavam falando de meninos que elas gostavam... Foi um dos momentos que eu me lembro da escola de estar ouvindo claramente.

5) Você já fez, ou pensa em fazer, o bilateral? Por quê?

Não fiz o bilateral. Tenho vontade sim. Por duas questões: poder ouvir mais e outra pela questão de tão burocrática a troca e cara a manutenção. Caso der problema em um aparelho, posso ficar com o outro.

6) Quais foram as mudanças e vitórias que o IC trouxe em sua vida?  Sente-se realizado com ele?

As mudanças foram muito positivas. Passei a ouvir sem a leitura labial, coisas que antes era impossível. Hoje consigo ouvir música, sair socialmente mais confiante. Danço, requebro até demais, rs. Quanto as músicas, eu sempre gostei, mas nunca decifrava corretamente, era meio "lara li ra lá....uou ou". Depois do IC, passei a ouvir com mais clareza. Mas, ainda leio a letra para decorar e ouvir ao mesmo tempo. Creio que isto é primordial para o desenvolvimento. Quando eu era pequeno, as minhas músicas eram sempre da Xuxa, aprendi com ela o alfabeto em Libras. Com o tempo, passei a gostar de demais estilos de musicas, e cantores como Ivete Sangalo (minha preferida), Luan Santana, Jorge e Mateus, Roberto Carlos, entre outros. E como faço jornalismo, as aulas de rádio sempre são um desafio, pois é necessário ouvir o retorno no fone de ouvido para controlar o tom de voz adequado para a tal noticia. Depois do IC, passei a participar e organizar caravanas para programas de auditórios das principais emissoras do país (Globo, Record, Band e SBT). E também passei a ir mais a shows que eu curta e saiba a letra do cantor. Ás vezes, até busco ouvir para decorar a letra e chegar ao show sabendo cantar as músicas, hahaha.

7) Que mensagem você deixa para quem ainda está na dúvida sobre se deve ou não fazer a cirurgia?

Não tenha medo. Se tiver, peça um tempo para pensar, mas não demore. Sei que muita gente tem insegurança. Mas para mim foi a melhor coisa que aconteceu. A minha expectativa foi absurdamente superada. Enfrente-a como um novo nascimento.

 

Entrevista por Ana Raquel Périco Mangili.